A solidão não tem a idade que pensamos

Tânia Brandão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

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Existem imagens muito instaladas sobre solidão: um idoso à janela; o silêncio de uma casa demasiado grande; o telefone que não toca. É uma imagem real, e o sofrimento que representa merece atenção. Mas ficámos tão presos a ela que não vimos o que está a acontecer à nossa volta.

Os dados de vários países europeus apontam numa direção inesperada: os grupos que reportam níveis mais elevados de solidão já não são apenas os mais velhos. São os jovens adultos também. Um estudo europeu de 2024 estimou que mais de metade dos jovens adultos vive com solidão moderada a severa, valores superiores aos registados nos grupos mais velhos em alguns países. Os jovens adultos emergiram, nos últimos anos, como um novo grupo de risco, e esta mudança ainda não teve o reconhecimento público que merece.

A geração mais conectada da história, em termos tecnológicos, é também uma das mais solitárias. Isto não é um paradoxo menor. É um sinal de que estamos a confundir contacto com ligação. A solidão não é estar sozinho. É a distância entre as relações que temos e as relações de que precisamos. Há pessoas rodeadas de gente que se sentem profundamente sozinhas e desconectadas. Há pessoas que vivem sozinhas e não se sentem assim. O que determina a diferença não é a quantidade de presença humana à volta, é a qualidade da ligação, a sensação de ser verdadeiramente conhecido por alguém.

E é precisamente aqui que algo se foi perdendo. As comunidades de pertença que durante gerações criaram esse tipo de ligação de forma quase natural, o bairro, a família alargada próxima, o emprego estável durante anos, foram-se fragmentando. A mobilidade geográfica separou redes de apoio. A vida adulta tornou-se um contexto cada vez mais difícil para criar amizades profundas: já não existem os ambientes que na infância e adolescência fazem isso acontecer quase sem esforço. A tecnologia promete preencher esse espaço, mas audiência não é o mesmo que pertença.

O impacto de não ter ligação real é mais sério do que o senso comum sugere. A investigação associa solidão crónica a risco aumentado de depressão, ansiedade, doença cardiovascular e mortalidade precoce, com efeitos documentados independentemente da idade, do sexo e do estado de saúde inicial. Não é uma questão de sensibilidade ou de temperamento. É um problema de saúde com causas estruturais, e que continua a ser tratado como algo de foro privado.

A solidão está a mudar de rosto, mas ainda não mudámos a forma como a vemos, e isso tem/terá custos.

Nota. Este texto contou com apoio de uma ferramenta de inteligência artificial (Claude) para revisão linguística e melhoria de clareza. O conteúdo, a argumentação e a revisão final são da exclusiva responsabilidade da autora.

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