Embora tenha conquistado a “dobradinha” na época passada, tanto na imprensa desportiva como no universo sportinguista, Rui Borges não se tornou num nome consensual. ⠀À entrada para esta temporada, pairava no ar uma certa descrença em relação à sua capacidade de ser um treinador de projeto no Sporting.⠀Em parte, toda essa desconfiança fazia sentido.Em 2024/2025, mesmo que a equipa leonina não tenha voltado ao nível apresentado com Ruben Amorim, a verdade é que Rui Borges mostrou-se como uma solução para os problemas de curto prazo.Para além da aptidão para recuperar a equipa mentalmente, o treinador mirandelense teve a habilidade de encontrar soluções, perante um cenário caótico de lesões no plantel.⠀A juntar a isto, ainda soube adaptar-se aos jogadores disponíveis e ter a inteligência para aproveitar, dentro do possível, algumas bases do trabalho de excelência de Ruben Amorim.⠀No final de contas, Rui Borges teve méritos indiscutíveis na época histórica do Sporting.Contudo, numa perspetiva de médio/longo prazo, percebeu-se que algo teria de mudar… Seria sempre muito complicado sustentar aquele trabalho no tempo. Apesar dos títulos conquistados, ficou muito claro o desconforto de Rui Borges a trabalhar com ideias que não eram as dele. Os Leões acabaram 2024/2025 com exibições sofríveis. A criação de dinâmicas coletivas foi descurada em prol do rendimento imediato.Nesse sentido, esta temporada surgia como um verdadeiro desafio à capacidade de Rui Borges ser uma solução de médio/longo prazo no Sporting. Era crucial perceber que evolução os Leões teriam.Rui Borges não se “sentou em cima do sucesso” e, mesmo contra a vontade de muitos (desde logo por deixar cair o 3-4-3), colocou em prática as suas próprias ideias.⠀Com o decorrer desta época, foi provando que, afinal, poderia ser mais do que um “penso rápido” em Alvalade.⠀Com o seu cunho pessoal, montou um coletivo com uma identidade vincada e que encaixa perfeitamente no contexto que encontra na I Liga Portuguesa.O Sporting de Rui Borges é uma equipa forte em ataque posicional. É muito dinâmica com bola. Pratica um futebol associativo e gosta de prolongar os seus ataques (uma das grandes diferenças em comparação à época passada, na qual era muito mais vertical e dependente da procura pelo ataque à profundidade de Gyökeres). Tem no jogo interior a sua grande arma, com vários jogadores a combinarem em zonas centrais.⠀É certo que em boa parte devido às características individuais dos seus jogadores (tem centrais excelentes na saída de bola e do meio campo para a frente muitos especialistas em criar desequilíbrios em espaços curtos), mas o Sporting tem muita facilidade para se impor e criar oportunidades frente a blocos baixos, algo tão importante para os candidatos ao título em Portugal.Para além da criação de uma forte identidade coletiva, Rui Borges também demonstrou ser bastante capaz em termos estratégicos.⠀A histórica campanha europeia dos Leões é a prova disso mesmo.⠀À exceção da 1.ª mão dos oitavos-de-final, frente ao Bodø, o Sporting foi sempre uma equipa competitiva na Liga dos Campeões.Como é evidente, há sempre um outro lado da moeda. Nem tudo é perfeito, longe disso.Rui Borges tem, como qualquer treinador, as suas debilidades.⠀A gestão das vantagens, sobretudo nos “jogos grandes” a nível nacional, é uma das delas.⠀A tendência para abdicar da bola e baixar linhas foi uma constante, algo que, até pelas características da equipa, foi bastante prejudicial em certos momentos da época.⠀A juntar a esta questão, independentemente das limitações do plantel, Rui Borges também nem sempre ajuda a equipa a partir do banco. Por vezes, demonstra algumas dificuldades para interpretar o que o jogo pede.Num cômputo geral, analisando o que foi toda a temporada do Sporting, creio que é justo dizer que o trabalho de Rui Borges foi positivo. Mostrou evolução e argumentos para ser um treinador de projeto num clube grande em Portugal.⠀O problema é que o futebol é o momento… A memória tende a ser muito curta.Há 1 mês, a renovação de Rui Borges seria quase unânime. Hoje, as dúvidas em relação ao seu valor, à semelhança da época passada, são muitas…⠀Neste final de temporada, condicionado por um calendário infernal e (mais) uma vaga de lesões, o Sporting acabou por, de certa forma, ser vítima do próprio sucesso. Com a equipa de rastos em termos físicos e mentais, teve um mês de abril para esquecer.Perante toda esta situação, o que se pede à direção de um clube, ainda para mais da dimensão do Sporting, é que saiba sobrepor a capacidade de analisar o que foi toda uma época à desilusão do momento. Que se guie por linhas muito claras e convicções fortes e não deixe que os resultados coloquem em causa o seu projeto desportivo.⠀A renovação de Rui Borges acaba por ser uma decisão racional e coerente com esta forma de pensar e atuar.