A religião secular, os seus discípulos nos ‘media’ e a guerra contra os factos

Ricardo Simões Ferreira

Editor Executivo Adjunto do Diário de Notícias e Diretor Executivo do Motor24

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Imaginem um Parlamento Ocidental onde é exibido um documentário sobre as atrocidades nazis e uma parte significativa dos deputados abandona a sala em protesto. O resultado seria o suicídio político imediato dos infratores, a excomunhão cívica e uma indignação unânime. No entanto, quando em 2008 o Parlamento Europeu exibiu The Soviet Story – revelando a cooperação entre a polícia secreta de Estaline (o NKVD ) e a Gestapo, o Holodomor e o terror do Gulag –, a reação da esquerda radical e das correntes pró-Kremlin foi precisamente o boicote e a acusação de "revisionismo".

Uma memória que esta semana vale a pena recuperar, pois este domingo, dia 23, foi o Dia Europeu de Memória das Vítimas do Estalinismo e do Nazismo – data da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, em 1939. Já agora, o poderoso documentário (que deveria passar todos os anos nas escolas) pode ser visto no YouTube.

Esta assimetria não é um mero acidente histórico; é o pilar de uma imunidade moral profundamente enraizada. Em Portugal, ainda há pouco tempo, assistimos em plenário à líder parlamentar do PCP a saudar os "avanços extraordinários" da União Soviética, lamentando o seu fim. Vimos o secretário-geral do partido viajar para Havana para festejar o legado de Fidel Castro – o mesmo ditador responsável por milhares de fuzilamentos, pelos campos de trabalho forçado das UMAP, pelas deportações dos pueblos cautivos e pela segregação compulsiva de doentes com sida em "sidatórios" nos anos 80 e 90.

Houve comissões de ética, indignação editorial em horário nobre ou quaisquer exigências de cordão sanitário? Nem uma palavra. O elogio a regimes que empilharam dezenas de milhões de mortos é tolerado como um inofensivo folclore ideológico.

Toda esta complacência assenta numa simples, mas atroz, deformação epistemológica. Qualquer pessoa intelectualmente honesta, ajusta as suas convicções quando confrontada com factos novos. Já o dogmático prefere alterar a realidade quando esta recusa encaixar na sua utopia. Foi esta cegueira que levou, por exemplo, o maoísmo a proibir a Teoria da Relatividade de Einstein por ser "burguesa e reacionária" – e que “ao fim do dia” resultou nos mais de 40 milhões de mortos do Grande Salto em Frente, provocados pela imposição de pseudociência e pela deliberação ideológica sobre a agronomia.

Os socialistas "moderados" e os ditos “sociais-democratas” – os "primos" dos comunistas a quem Margaret Thatcher apontou o destino inevitável de esgotar o dinheiro dos outros – partilham exatamente do mesmo vício de raciocínio. A diferença reside na gradação dos métodos, mas não no desprezo pelos dados.

Não? Veja-se o que acontece quando um estudo atuarial independente, como o apresentado por Jorge Bravo, demonstra por A+B que o modelo de repartição da Segurança Social está estruturalmente falido perante o inverno demográfico e a inclusão da Caixa Geral de Aposentações. A reação do establishment estatista não é corrigir a rota. É acusar a matemática de estar errada, mascarar défices futuros com saldos conjunturais e, claro, assassinar o caráter do emissor, imputando-lhe "interesses no setor financeiro". Para isso, a maioria dos nossos jornalistas são ótimos: o enquadramento ideológico já vem pré‑instalado e dispensa qualquer literacia económica. Num país onde as redações tratam a Segurança Social como um dogma e não como um sistema atuarial, a ignorância deixou de ser um acidente — é uma rotina profissional.

É que se esta negação sistemática da realidade, no que toca a certos partidos do espetro político, perdura com tal impunidade, deve-o à cooperação de uma comunicação social "fofinha", incapaz de aplicar a mesma régua moral aos dois lados. Enquanto os crimes e os falhanços da esquerda continuarem a ser julgados pelas suas "boas intenções" declaradas e não pela montanha de cadáveres ou pela ruína económica que deixam (sempre!) para trás, continuaremos reféns de uma religião secular para a qual a verdade dos factos é, dia após dia, o inimigo a abater.

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