O principal conselho que dou aos colegas novos (de idade, de docência), assim que chegam à minha escola, é que sejam despachadinhos a fazer os sumários das suas aulas para evitarem algum problema, motivado por um delírio esquisito da equipa ministerial da Educação. E sublinho que podem dar uma excelente aula, mas se a não registarem, não conta para o MECI, enquanto que, se registarem o sumário, até podem ficar a fazer o pino ou palavras cruzadas que tudo está conforme os desejos de quem decide.
Já escrevi sobre o tema quando o Ministério da Educação decidiu, a dada altura do ano lectivo passado, pedir às escolas que exportassem os dados dos sumários para ajudar na contabilidade dos professores em falta. Já então tentei explicar que essa forma de apurar a carência de docentes está errada e padece de vários equívocos, a menos que o verdadeiro objectivo seja outro. Porque as plataformas mais usadas nas escolas portuguesas (a INOVAR dominando o mercado e a GIAE apanhando as migalhas) não permitem, a partir do registo dos sumários, apurar o tipo de falta que o docente deu. Foi ainda afirmado que assim se ficaria a saber quem deu que aulas, o que também faz escasso sentido, porque cada docente acede com os seus dados pessoais e, à partida, só pode fazer os seus sumários.
Por isso, achei que a medida era ineficaz e, de certo modo, algo idiota, apenas revelando a ignorância da tutela em relação à matéria, mesmo que tenha sido inspirada por algum “sopro” interno de elementos ligados à gestão escolar, incapazes de exercer devidamente uma liderança que tanto gostam de exibir e reclamar. Como se percebeu, os efeitos foram nulos e nenhuma informação relevante surgiu de tal iniciativa.
Eis que, arrancando o novo ano lectivo, se voltou à carga e na passada semana se voltou a exigir, com muita pressa, a exportação dos dados dos sumários para os serviços centrais do MECI, incluindo desta vez os sumários dos próprios elementos das direções escolares que, como os diretores, nem sequer dão aulas. Juntando isso ao facto de as plataformas continuarem sem permitir diferenciar o motivo das faltas dos docentes (falta por conta das férias, atestado de maior ou menor duração, não-colocação, visita de estudo ou realização de outra tarefa integrada no plano de actividades da escola), é natural pensar-se que o que está e causa não é apurar a falta de professores, mas algo mais alargado. Até porque se as plataformas têm limitações quanto ao tipo de faltas registadas, têm outro tipo de valências como a determinação da hora, local e equipamento usado para registar os sumários, se o fazem fora da sala e do horário oficial para o efeito.
Claro que me poderão dizer que isto já é paranoia excessiva, mania da perseguição, mas felino escaldado até de uma torneira fechada tem medo e com razão, porque, afinal, foi esta equipa ministerial que fez um comunicado e alimentou noticiário dramático, porque encontrou 62 docentes (num universo que pode chegar aos 150.000) com o registo criminal irregular, alegadamente graças à automatização da sua validação.
Por isso, como em tantas outras matérias na Educação que temos, mais vale prevenir do que remediar, ou seja, mais vale registar o acto do que praticá-lo.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico