A aparente redução de apreensões em alguns dos principais portos europeus pode sugerir progresso, mas uma leitura mais ampla aponta para uma conclusão menos confortável: o tráfico de droga na Europa não está necessariamente a recuar, está a adaptar-se.O primeiro erro político é confundir apreensões com controlo. O facto de os volumes interceptados em portos como Antuérpia e Roterdão terem descido nos últimos anos não significa, por si só, que o tráfico esteja a recuar. Significa apenas que mudou de forma. A diferença é que as redes criminosas aprenderam a distribuir melhor o risco, a fragmentar carregamentos e a contornar os pontos de pressão. Ou seja, adaptaram-se mais depressa do que os Estados.Mais relevante ainda é o facto de a Europa estar gradualmente a deixar de ser apenas um espaço de destino e consumo para assumir, também, funções intermédias na cadeia de valor da cocaína. A droga entra com elevados níveis de pureza e passa depois por processos de adulteração, recristalização, reembalagem e redistribuição já em território europeu.Esta evolução merece particular atenção política, porque revela que o fenómeno não se limita à entrada de fluxos ilícitos vindos do exterior. Revela também a consolidação de infraestruturas criminosas duradouras dentro do próprio espaço europeu, desde laboratórios e redes de processamento, até circuitos de branqueamento de capitais e infiltração em sectores da economia.É precisamente neste ponto que a questão deixa de ser apenas criminal e passa a ter uma dimensão mais ampla. Quando estruturas ligadas ao crime organizado se enraízam em mercados legítimos, em imóveis, em empresas, em cadeias logísticas e em circuitos de influência local, o problema adquire uma densidade institucional que não pode ser ignorada.Também a dimensão geopolítica desta evolução merece ser considerada com maior atenção. As rotas diversificam-se, os grupos latino-americanos aproximam-se dos mercados consumidores e a pressão exercida sobre os grandes portos favorece o recurso a portos secundários, vias terrestres, serviços postais e operações marítimas mais complexas, incluindo semi-submersíveis.Longe de indicar retração, esta evolução sugere uma crescente capacidade de adaptação estratégica. Quanto maior a pressão num ponto específico, maior parece ser a tendência para a redistribuição, a dispersão e a reconfiguração do sistema.Ora, muitas respostas europeias continuam ainda demasiado centradas em pontos de entrada específicos, quando o fenómeno já opera claramente em rede. O desafio europeu hoje, mais do que reforçar o controlo, é aprender a ler o fenómeno na sua nova escala e na sua nova lógica. Escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico