Coligindo textos publicados ao longo das últimas três décadas, o novo livro de António Pinto Ribeiro – O Poder da Cultura (ed. Temas e Debates) – é uma antologia de um exemplar labor de reflexão sobre temas, labirintos e perplexidades da vida cultural. Em qualquer caso, está muito longe de ser uma mera coleção de memórias. Mesmo quando são datadas (no sentido em que remetem para contextos muito particulares), tais memórias guardam uma energia que ecoa no presente, relançando-nos na pergunta ancestral, porventura irónica, mas essencial: de que falamos quando falamos de cultura?Não falamos, bem entendido, desse ponto de vista (ingénuo ou cínico, tanto faz) que leva alguma informação televisiva a proclamar a sua atenção ao assunto, já que há sempre alguma notícia “sobre cultura”. Aliás, logo no prefácio, o autor tem o cuidado de lembrar que, apesar do seu “título abrangente”, o termo “cultura” é “suficientemente vazio para nele caber tudo e nada”. Daí a proposta de adoção do termo “cultural” (decorrente dos trabalhos do antropólogo Arjun Appadurai) como “um adjetivo que reconhece processos, diferenças e mobilização de identidades, em vez do substantivo tradicional que tende a reificar culturas como entidades homogéneas e fixas.” Para retomarmos a pedagogia analítica de Roland Barthes (que Pinto Ribeiro também cita), o cultural envolve tanto a encenação de Shakespeare como a imprensa dos “famosos”.Por aqui perpassam questões multifacetadas (que o subtítulo do livro identifica como “questões permanentes”), do papel da Universidade até ao impacto do populismo nas democracias, passando pela tragédia cultural, por excelência, do dinheiro – há mesmo um texto com um título que, digo eu, não corresponde a uma palavra de ordem dominante na nossa classe política: “A cultura é cara? Experimentem a ignorância.”. Este é um pensamento que, longe de se esgotar nos problemas de produção e difusão de obras (o que não significa que tais assuntos sejam menosprezados), nos recorda que qualquer cultura, isto é, o cultural existe como matéria indissociável dos lugares onde, mal ou bem, vivemos. Há mesmo um texto, Fragmentos de cidades (resultante da remontagem de escritos de 2004 e 2009) que, partindo das conceções romântica e moderna de cidade, propõe um breve dicionário de espaços do nosso possível viver: livrarias, mercados, jardins, etc.Fixo-me nas linhas dedicadas aos hotéis. Pinto Ribeiro recorda, por exemplo, que filmes como Hiroshima Meu Amor (Alain Resnais, 1959) ou Lost in Translation (Sofia Coppola, 2003) só poderiam ter acontecido num hotel, evocando também Summer Interior (1909), um quadro de Edward Hopper – os espaços acolhem os corpos, mas cada corpo gera o seu próprio cenário.O corpo, os corpos surgem como assunto fulcral de um texto fascinante, Por exemplo, a cadeira – ensaio sobre as artes do corpo, resultante de uma conferência realizada em 1996, na Culturgest. A “cadeira” não é uma referência abstrata, antes um “objeto pertença da dança, do teatro e da performance” – de Merce Cunningham a Robert Wilson ou Pina Bausch, passando, claro, pela peça As Cadeiras, de Ionesco. Isto porque “só o ser humano tem a particularidade de recorrer a este compasso que a cadeira lhe permite, interrompendo, assim, a cadeia de movimentos.”E se “o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu” (Barthes), isso quer dizer que, da miséria afetiva e sexual do Big Brother televisivo até às performances corporais encenadas por David Cronenberg em Crimes do Futuro (2022), a cultura nunca é unívoca, não exprime uma ordem universal. Será mesmo preciso falarmos de guerras culturais. Não se trata de aniquilar o outro, mas de pensar e agir a partir da certeza de que é no espaço cultural que o fator humano se define – ou definha.