A nova realidade geopolítica trouxe transformações que, até há poucos anos, pareceriam impensáveis. Entre elas está a vontade dos Estados Unidos de reavaliarem o sistema de alianças que tem sustentado grande parte do seu poderio global desde 1945. Contudo, o principal risco deste realinhamento estratégico poderá não ser aquele que muitos europeus antecipam.A intervenção recente do secretário de Estado norte-americano na Conferência de Segurança de Munique confirmou uma tendência já visível: Washington quer que os países europeus assumam a responsabilidade primária pela segurança do continente. Marco Rubio expressou esta posição num tom mais conciliador do que o adotado por Trump ou Vance, mas a mensagem essencial foi clara. Os Estados Unidos manterão o seu compromisso com a Europa e estarão dispostos a intervir caso esta enfrente uma ameaça comparável ao Terceiro Reich ou à União Soviética, não por altruísmo, mas porque o seu interesse nacional assim o exige. Ditam os manuais de geoestratégia que a potência marítima dominante não pode permitir que a Eurásia fique sob o controlo de uma única grande potência, seja ela uma Alemanha com “esteroides”, a Rússia ou a China. Nesse sentido, os europeus poderão, à partida, contar com o apoio americano em cenários extremos, embora seja para todos evidente que o diabo estará nos detalhes.Na prática, esta visão aproxima-se da tese da “NATO adormecida”, proposta em 2022 pelo académico britânico Sumantra Maitra. Segundo esta leitura, os Estados Unidos continuarão a garantir o guarda-chuva nuclear e a presença aeronaval no Atlântico e no Mediterrâneo, mas reduzirão progressivamente os contingentes terrestres estacionados na Europa. Washington acredita que esta postura permitirá preservar a sua influência no Velho Continente e manter sólidos os laços económicos transatlânticos, que são essenciais para a prosperidade dos dois blocos e para o futuro do dólar como moeda de reserva global, independentemente das divergências ideológicas. Como disse Maitra numa entrevista recente ao Politico: “Posso odiar o meu vizinho, mas se a casa dele estiver a arder irei ajudar a apagar o fogo.”.Esta estratégia, porém, acarreta riscos para ambos os lados. Não é evidente que a Europa aceite pacificamente este novo equilíbrio. A recente controvérsia em torno da Gronelândia gerou inquietação e a opinião pública europeia vê hoje os Estados Unidos com crescente desconfiança. Para muitos, Washington tornou-se um adversário estratégico dos valores europeus. Este clima poderá revelar-se problemático para os próprios Estados Unidos, caso venham a enfrentar militarmente a China.Convém recordar que a Europa poderia, em teoria, sustentar uma Defesa eficaz contra a Rússia numa guerra convencional, embora isso exigisse uma mobilização profunda e implicasse custos humanos, económicos e políticos muito elevados. Já os Estados Unidos, apesar da sua superioridade global, teriam maiores dificuldades em enfrentar a China sem o apoio dos seus aliados na Europa e no Indo-Pacífico. Ou seja, se é verdade que a Europa precisa dos Estados Unidos, também é verdade que os Estados Unidos precisam dos seus aliados. Neste contexto, qualquer excesso de confiança estratégica por parte de Washington tende a ser contraproducente. A húbris imperial é sempre má conselheira, sobretudo quando o potencial adversário tem a escala e os recursos da China.."A hegemonia militar americana foi fundamental para a construção europeia. A retirada dos EUA pode despertar velhas rivalidades que não deixarão de ser exploradas pelos adversários internos e externos da União Europeia.”. Há ainda um segundo risco, que foi analisado num artigo na revista Foreign Affairs: a retirada gradual dos EUA poderá reavivar velhas tensões no continente europeu. A integração europeia foi possível porque a hegemonia americana ajudou a enterrar rivalidades históricas. Mas o rearmamento alemão, que deverá transformar o país na maior potência militar europeia até 2030 (com um orçamento de Defesa anual de quase 200 mil milhões de euros), exigirá um novo equilíbrio de forças com a França, a Polónia e outros países, abrindo espaço a divisões e picos de tensão que serão inevitavelmente explorados pelos adversários internos e externos do projeto europeu. O risco agravar-se-á se partidos como a AfD ou o Reagrupamento Nacional chegarem ao poder em Berlim ou Paris. Para a Europa, e para países como Portugal, cuja prosperidade depende profundamente da integração europeia e da estabilidade da moeda única, este poderá ser o impacto mais perigoso da retração americana.