Toda a gente já ajustou o tom de voz numa reunião importante, conteve uma reação que podia parecer exagerada, escolheu as palavras com cuidado para não criar uma impressão errada. Fazemo-lo sem pensar, quase por instinto. Calibramos o que mostramos de nós consoante quem está à frente, e não achamos isso estranho, faz parte de viver em sociedade.Mas há pessoas para quem este esforço não tem pausa. É permanente, calculado, e profundamente esgotante. Não porque estejam a esconder intenções ou a ser desonestas, mas porque aprenderam, muitas vezes desde muito cedo, que a sua forma natural de estar no mundo não é bem recebida. Que são demasiado intensas, demasiado barulhentas, demasiado agitadas, ou demasiado fechadas sobre si próprias. E então aprendem a conter. Não mostrar que certos sons são insuportáveis. Forçar o contacto visual quando é perturbador. Reproduzir as reações que os outros parecem ter por instinto. O resultado, visto de fora, é uma pessoa que funciona bem. O que não se vê é o esforço que isso custa, e chegar ao fim do dia completamente esgotada por tudo o que teve de conter para simplesmente estar presente, é uma experiência que quem não a vive dificilmente consegue imaginar.Isto é o que muitas pessoas autistas e com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) vivem diariamente, muitas vezes sem que ninguém à sua volta se aperceba, e sem que elas próprias consigam nomear de onde vem aquele cansaço que o descanso não resolve, aquele que não corresponde ao que foi feito, e que gera a sensação de estar a falhar em algo que toda a gente parece conseguir com facilidade.O masking desenvolve-se cedo, quando a criança percebe que certos comportamentos geram repreensão ou afastamento, e que suprimi-los gera aceitação. Com o tempo, a camuflagem pode tornar-se tão profunda que a própria pessoa já não sabe distinguir o que é dela do que construiu para ser aceite, e separar as duas coisas pode ser um trabalho longo e difícil.A investigação associa níveis elevados de masking a taxas significativamente mais altas de ansiedade, depressão e um esgotamento que não se resolve com descanso, mas que resulta de anos de adaptação constante. E este custo não é apenas psicológico, estudos recentes mostram que o masking prolongado se traduz em níveis mais elevados de stress fisiológico, o que significa que o corpo paga aquilo que a mente aprendeu a esconder. Alguns estudos associam-no também a pensamentos suicidas, o que torna difícil continuar a vê-lo como uma estratégia inofensiva.Quanto melhor uma pessoa é a camuflar, mais invisível se torna a sua dificuldade e, paradoxalmente, menos provável se torna que receba o apoio de que precisa. O masking eficaz adia diagnósticos durante décadas, de forma particularmente pronunciada nas mulheres. Chegam à idade adulta tendo sido descritas como ansiosas, perfeccionistas, sensíveis demais ou simplesmente difíceis, raramente como alguém cujo cérebro funciona de forma diferente e que aprendeu, por necessidade, a não o mostrar.Pense-se num jantar de amigos ou de família em que a pessoa participa, sorri, responde às perguntas, acompanha as conversas, mas está a usar toda a sua energia para gerir o ruído, as expectativas, o ritmo das trocas e a impressão que está a causar. Ou numa situação em que alguém tem de se explicar, justificar ou descrever o que viveu, e parece calmo e articulado porque aprendeu a funcionar assim, mas por dentro está a gerir um esforço que quem está do outro lado raramente imagina. Por fora, tudo parece bem. Por dentro, foi mais um dia de trabalho que ninguém viu, e que ninguém vai agradecer.O masking é uma estratégia de sobrevivência que muitas pessoas neurodivergentes desenvolveram porque o ambiente não lhes deixou alternativa, e cujo custo foi durante demasiado tempo ignorado por ser invisível. Enquanto as instituições, os serviços e as pessoas que rodeiam quem sente que precisa de se camuflar não aprenderem a reconhecer o que está por baixo da superfície, continuará a ser exigido a quem já está esgotado que se transforme todos os dias para caber num mundo que não foi pensado para si. E isso não é adaptação. É demasiado.