A morte do tubarão é um alerta para todos nós

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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Um tubarão foi morto à paulada por vários jovens, nos Açores. Falamos de uma agressão totalmente gratuita, filmada e partilhada nas redes sociais pelos próprios agressores, que riam enquanto o atacavam. Poderíamos pensar que se trata apenas de um episódio isolado de crueldade, mas não é. Infelizmente.

Estamos perante um sinal profundamente preocupante de falta de empatia, e que não se limita a estes jovens em particular. Quando a violência se transforma em entretenimento e o sofrimento do outro, humano ou não humano, se converte em conteúdo para redes sociais, algo de essencial se perdeu pelo caminho.

A empatia não desaparece de um dia para o outro. Vai-se desgastando quando normalizamos a agressão, quando banalizamos a dor e quando deixamos de ensinar que a vulnerabilidade merece cuidado e não domínio.

Pergunto-me, aliás, se existe assim tanta diferença entre este episódio e aquilo a que assistimos nas touradas. E a verdade é que não. Em ambos os casos, a violência é legitimada em nome de um suposto “espetáculo”. Em ambos os casos, aplaude-se o sofrimento de um animal, transmitindo uma mensagem clara: há vidas cujo sofrimento e morte são aceitáveis. Há dores que podem ser celebradas. Há violência que pode ser normalizada.

E quando normalizamos a violência num contexto, não podemos fingir surpresa quando ela emerge noutros.

Vivemos num tempo em que a agressão se tornou conteúdo, em que a humilhação gera likes e em que a violência gratuita circula sem filtro. Isto educa – ou melhor, deseduca – uma geração inteira, sobretudo os mais novos, cuja imaturidade não é apenas cognitiva, mas também emocional e moral.

Ensina-se, assim, que a força vale mais do que o respeito, que dominar é mais importante do que compreender, que o sofrimento alheio é irrelevante desde que entretenha. Uma sociedade que valoriza a violência e o abuso dos mais fracos está a criar terreno fértil para comportamentos cada vez mais desumanizados.

Não podemos ser tolerantes com isto. Não podemos relativizar, desculpar ou minimizar. Precisamos de intervenção especializada, consistente, séria e consequente. E precisamos, sobretudo, de educar para a empatia desde cedo, de promover literacia emocional e ética digital, de responsabilizar de forma educativa e não apenas punitiva. Precisamos de adultos coerentes, que não defendam violência num contexto e a condenem noutro. Precisamos de políticas públicas que previnam, e não apenas reajam.

A violência é aprendida, e pode ser desaprendida.

O episódio do tubarão é um alerta. Mostra-nos onde estamos a falhar enquanto sociedade, enquanto educadores, enquanto adultos.

A pergunta não é “como é possível?”. A pergunta é: “O que estamos dispostos a fazer para que não volte a acontecer?”

Porque uma sociedade verdadeiramente segura é aquela que não transforma sofrimento em espetáculo e que não desiste de educar para a empatia.

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