A mão atrás do arbusto em Ceuta

Diogo Noivo

Politólogo

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Entre os vários países europeus que se opuseram à intervenção militar dos Estados Unidos da América e de Israel no Irão, Espanha foi, sem dúvida, o mais veemente. A violação do Direito Internacional e o ataque ao multilateralismo exigiam um sonoro ‘não à guerra’.

Na verdade, a defesa do Direito Internacional escondeu uma bravata demagógica com escassos efeitos práticos, cujo único propósito foi polarizar o eleitorado espanhol, à época com importantes eleições regionais em curso, vistas como a antecâmara das legislativas previstas para 2027.

Subordinar a política externa do Estado aos interesses do partido tem custos. Desde logo porque Washington e Telavive não perderão a oportunidade de apresentar a factura.

De acordo com vários apoiantes de Sánchez dentro e fora de Espanha, a entrada caótica de 60.000 imigrantes em Ceuta na passada quinta-feira é o preço a pagar. A crise migratória resumir-se-á a um ajuste de contas.

É evidente que o ‘não à guerra’ de Sánchez torna crises como esta da maior conveniência para Benjamin Netanyahu e Donald Trump. Nas redes sociais, vozes israelitas e da direita MAGA desdobram-se em comentários contra Espanha, exigindo que Ceuta e Melila sejam devolvidas a Marrocos com base em argumentos descabelados, sem qualquer fundamento. No fundo, propaganda ao ritmo da toada habitual de Marrocos.

Não surpreende. As boas relações entre Trump e a monarquia alauita são antigas e bem conhecidas. Marrocos foi o sexto país árabe a reconhecer Israel, algo possível graças aos bons ofícios da Administração norte-americana. No que respeita à Espanha de Sánchez, o alinhamento entre Estados Unidos, Israel e Marrocos é óbvio.

No entanto, reduzir o sucedido a uma urdidura destes três países revela uma proclividade conspirativa em tudo semelhante à que existe no meio trumpista. A explicação está noutros lados.

Primeiro, há anos que Marrocos usa a imigração ilegal como instrumento de pressão sobre Espanha e a União Europeia. Ceuta é território espanhol, mas também uma fronteira externa da União.

A crise anterior, ocorrida em Maio de 2021, na qual entraram em Ceuta mais de 8000 pessoas, foi um castigo de Rabat a Madrid: Espanha acolhera o líder da Frente Polisário para tratamentos médicos, mas os argumentos humanitários não mitigaram a indignação marroquina.

Desta feita, a recente visita de Estado de Sánchez à Argélia, eterno rival de Marrocos, com o qual compete pela hegemonia no Magrebe, a par do velho diferendo sobre o Sahara Ocidental, explicará parte da avalanche migratória.

Segundo, a alteração à política de fronteiras de Espanha. Muito embora a lei de estrangeiros permita a devolução imediata a Marrocos de todos os imigrantes encontrados a cruzar a fronteira, o Tribunal Supremo decidiu, no início de Julho, que este entendimento apenas vale para quem atravessa a fronteira por terra. Quando a travessia é feita por mar, Espanha está obrigada a acolher os imigrantes e a dar-lhes o direito de solicitar asilo. Marrocos explorou esta novidade, que gerou algum efeito de chamada.

Por último, a política migratória do governo de Sánchez, que levou Espanha a atingir números sem precedentes de estrangeiros no país. São cerca de oito milhões, 15% do total da população.

Acresce que há pouco mais de um mês o Executivo aprovou uma regularização extraordinária limitada a 500.000 imigrantes. Tal como vários organismos públicos e privados alertaram, a realidade é bem diferente, situando-se já em 1,1 milhões. Sobrevém destes números outro efeito de chamada.

Espanha pagará um preço pelo ‘não à guerra’. Mas, neste caso, a haver uma mão atrás do arbusto, será a de sempre, a marroquina, ainda que porventura com dedos americanos e israelitas a tirar proveito do momento.

Curiosamente, o governo espanhol preferiu abrir uma crise diplomática com Itália, que se queixou do descontrolo de fronteiras europeias, e não com Marrocos. Aqui, sim, há matéria de sobra para boas teorias da conspiração.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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