A discussão sobre as chamadas linhas vermelhas ao Chega foi apresentada como se fosse uma questão de purismo democrático ou de sobranceria moral.Nunca vi assim essa questão.Tenho defendido, há muito, que não existem condições sérias para negociar politicamente com o Chega.Não porque se deva excluir quem pensa diferente, porque a democracia vive do pluralismo, do confronto de ideias e da capacidade de construir entendimentos.Porém uma coisa é negociar com quem discorda de nós, mas já outra, muito diferente, é entregar a estabilidade do País a quem não tem uma linha ideológica orientadora, nem um compromisso previsível com qualquer agenda de governação.O episódio da reforma laboral mostrou isso com uma clareza rara.O Governo apresentou uma proposta de reforma da legislação laboral. Foi discutida e melhorada com os sindicatos, onde deveriam existir cedências de parte a parte (conceito de negociação), no que era, no essencial, uma proposta orientada para modernizar o mercado de trabalho, aumentar a produtividade, melhorar salários e adaptar a economia às novas realidades do trabalho.Perante isto, o Chega fez o quê?Negociou até ao limite, na véspera chegou mesmo a anunciar a vitória da reforma laboral, mas no momento decisivo votou contra, ao lado de toda a esquerda.E há quem diga que o PSD deve negociar com o Chega, mas essa leitura parte de um erro. O Chega existe para condicionar, desgastar e, se possível, substituir o PSD como referência da direita portuguesa. A esquerda é o seu adversário discursivo e o PSD é o seu obstáculo estratégico.O Chega sabe que o seu eleitorado não o penaliza da mesma forma que penalizaria um partido tradicional. É um partido recente, com um eleitorado mobilizado, militante e muito ligado à ideia de confronto com o sistema.Esta não é, aliás, uma singularidade portuguesa.A experiência europeia tem mostrado que a direita radical não tem dificuldade em votar com a esquerda quando isso serve para bloquear governos de centro-direita ou fragilizar reformas impopulares.Em França, o Rassemblement National juntou-se à esquerda para derrubar o Governo de Michel Barnier.Em Espanha, o Vox tem alternado entre parceiro e bloqueador do Partido Popular, chegando a inviabilizar orçamentos regionais em convergência com a esquerda.Nos Países Baixos, Geert Wilders mostrou como um partido radical pode apoiar uma solução de direita num momento e fazê-la cair no seguinte, quando a instabilidade lhe serve melhor do que a responsabilidade.O padrão é claro. Estes partidos dizem combater a esquerda, mas não hesitam em usá-la como instrumento quando o objetivo é enfraquecer a direita democrática.É por isto que o Chega pode votar com a esquerda e fazer cair uma reforma, transformando o bloqueio em prova de força.E assim vai sempre impor uma linha vermelha na reforma do País.