A Lei de Parkinson conclui que o trabalho se expande até ocupar o tempo previsto para a sua execução. A Lei de Hanlon recomenda não atribuir à maldade o que pode ser explicado com estupidez. Já a Lei de Upton Sinclair estipula que é difícil que alguém compreenda algo quando o seu salário depende de não compreender.A estas leis universais, tão válidas como as da Física, podemos juntar uma nacional. Em homenagem aos Gato Fedorento, chamemos-lhe Lei do Gajo de Alfama: sempre que há problemas num determinado sector do Estado criam-se novas macroestructuras sem alterar substancialmente os elementos que as compõem e de onde brotam os problemas.Há exemplos na Saúde (Direcção Executiva do SNS), na Segurança Interna (Sistema de Segurança Interna), nos serviços de informações (Sistema de Informações da República Portuguesa) e em tantos outros domínios. Em termos de logística, fazendo jus à personagem que dá nome à nossa lei, a redacção será qualquer coisa como: “Mete mais dinheiro e mais gente nisso que as coisas resolvem-se.”Sei que soará displicente, mas parte dos argumentos aduzidos a favor da regionalização - mais macroestruturas - após a catástrofe que se abateu sobre a zona Oeste não convidam à sofisticação. Isto porque nos dizem que os inimigos da regionalização são gente de Lisboa, betinhos, ou mesmo betinhos de Lisboa.Em vez de insinuações, sejamos revolucionários: olhemos para um país regionalizado e tiremos conclusões. Basta cruzar a fronteira. Com 17 regiões autónomas - portanto, 17 governos regionais, 17 Parlamentos Regionais e largas dezenas de organismos autonómicos - Espanha assenta numa regionalização profunda, quase federal, das mais avançadas na Europa.As conclusões são muitas. Mas fiquemos pelos dois aspectos que alimentam a discussão em Portugal. Primeiro, o desenvolvimento. Antes da regionalização, os territórios mais pobres em Espanha eram a Extremadura e a Andaluzia. Passados 50 anos de intensa e incessante regionalização, quais são as regiões mais pobres? A Extremadura e a Andaluzia. Ou seja, a regionalização não é uma bala de prata contra assimetrias regionais. Em bom rigor, tende a agravá-las, comprometendo a coesão territorial.Segundo, a gestão de crises. Desafios graves à segurança de pessoas e bens - como a catástrofe provocada pela DANA, em Valência, em Outubro de 2024, que matou mais de 200 pessoas - destapam os vícios e os alçapões de um território regionalizado. A coordenação de organismos é difícil e a gestão de recursos lenta. A concorrência entre governo central e governos regionais, normal num país regionalizado, descamba com frequência em rivalidades que entorpecem a acção do Estado.De resto, pode até descambar no mais abjecto aproveitamento político quando os Executivos central e regionais são liderados por partidos adversários em contextos de elevada polarização.Casos há em que este segundo ponto desembocou no primeiro. Veja-se a covid-19. No âmbito estrito das suas competências, os governos regionais adoptaram políticas de confinamento muito diferentes, umas laxas e outras restritivas, o que resultou em lay-offs, desemprego, atracção de investimento bastante assimétricos, aprofundando desequilíbrios económicos.E como os confinamentos afetaram direitos e liberdades, momentos houve em que Espanha teve, de maneira objectiva, cidadãos de primeira, de segunda e de terceira.Em suma, propor a resolução dos problemas de Portugal com a regionalização é, no essencial, ter fé na Virgem. Fazê-lo na sequência de uma crise severa é próprio de quem defendeu que os americanos venceriam no Iraque porque tinham uma bomba que ia lá pelo cheiro a caril. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.