Filip Dujic é um árbitro de futebol canadiano, de ascendência croata, nascido em Toronto, em 1994. Com uma carreira de grande prestígio, começou a destacar-se em jogos da Primeira Liga do Canadá. A partir de 2022, passou a fazer parte da galeria de árbitros da Major League Soccer (MLS), um dos maiores campeonatos do continente americano, envolvendo um total de 30 clubes (27 dos EUA e 3 do Canadá). Em 2024, a FIFA integrou-o na lista de árbitros disponíveis para jogos internacionais.Algumas imagens do seu trabalho num jogo da MLS são frequentemente citadas como exemplo eloquente da arbitragem com VAR. Aconteceu a 23 de junho de 2024 no Energizer Park, na cidade de St. Louis, Missouri. Jogavam St. Louis City SC e Atlanta United FC. Chamado pelo VAR para avaliar a legalidade de um lance de golo do St. Louis, Dujic utilizou o dispositivo sonoro que passou a fazer parte do equipamento dos árbitros para comunicar a sua decisão a todo o estádio. Começou por dizer: “Após revisão, não houve fora de jogo...”, sendo interrompido por um aplauso entusiástico da multidão. Mas, com a mão direita, Dujic fez sinal de que ainda não tinha acabado, acrescentando: “Todavia, antes do golo, houve uma falta do St. Louis. Decisão final: livre direto.” A intervenção foi recebida com uma vaia monumental vinda das bancadas.. O vídeo do episódio pode ser visto no YouTube e em vários sites de órgãos de informação, constituindo um daqueles fenómenos que nos habituámos a classificar como virais. Na prática, produzem quase sempre o mesmo efeito sonâmbulo: “toda a gente” vê e partilha, e quanto mais se vê menos se pensa sobre o que estamos a partilhar. É uma perversão típica do nosso admirável mundo digital: o prazer do pensamento vai sendo anulado pela histeria que nos garante que estamos todos a ver o mesmo, ao mesmo tempo.O episódio envolve uma cristalina verdade ideológica. Ou seja: do sistema ideológico que, da FIFA até ao mais anódino comentador, passou a dominar o espaço público do futebol. É um sistema que, em nome de uma idealização muito particular da “verdade desportiva”, vai promovendo uma noção de justiça cujos efeitos simbólicos importa discutir.Não apenas a justiça dos resultados que assombra quase todas as discussões sobre futebol. Aí predomina a noção pueril, segundo a qual cada ponto de vista subjetivo possui um inquestionável valor de lei. Quando o comentador considera que a equipa A jogou melhor que a equipa B, a eventual vitória da equipa A é “justa”. Fica por esclarecer qual é a lei (logo, a justiça) que impede que uma equipa jogue mal... e ganhe um jogo. Mensagem implícita: como disputa desportiva, o futebol deve obedecer a uma legalidade que, afinal, não está escrita em nenhum compêndio.."O VAR nasceu para apaziguar o futebol. Na prática, a sua existência multiplica as formas de agitação mediática.".Embora decorrendo da mesma base ideológica, a cena vivida por Dujic possui uma dimensão diferente, quanto mais não seja porque ele é, de facto, o garante da aplicação de um sistema legal (as leis do jogo, bem entendido). Ora, a decisão da lei passou a ser assunto partilhado com as multidões, um pouco como os enforcamentos medievais, celebrados ou condenados pela assistência em volta do patíbulo.Já não há enforcados. O certo é que, em nome das melhores intenções, o sistema legal do futebol foi “transferindo” uma parte da sua legitimação para o espaço coletivo do público. Dujic mostra-se impecável e rigoroso nas suas funções, mas não deixa de ser um joguete das pulsões da multidão - sendo a multidão concebida como um coletivo abstrato que, por princípio, existe para lá de qualquer valor legal.Episódios deste teor são apenas uma variação da vulgaridade mediática que o VAR gerou. Criado em nome de uma transparência que iria apaziguar os diferendos interpretativos do futebol, o VAR apenas multiplicou tais diferendos: primeiro, através dos comentadores que gastam horas a especular sobre os centímetros de um fora de jogo ou a intensidade de um choque entre dois jogadores; depois, graças aos dirigentes que conseguem transformar qualquer resultado negativo do seu clube numa tragédia legal e, não poucas vezes, política. Nas transmissões televisivas, esses dirigentes aparecem nas tribunas dos estádios, silenciosos, de semblante fechado, talvez a pensar na sua reeleição ou apenas tristes com o estado das coisas - em qualquer caso, não parece que estejam a desfrutar o futebol.