Entramos em agosto e talvez possamos descansar em piscinas e tanques sem pensar em digitalizações de exames ou no futuro da pátria. Uma coisa boa na silly season é a possibilidade de aprofundarmos temas verdadeiramente importantes, como o Amor ou a Inveja.Cada um de nós, certamente de formas diferentes, conhece exemplos de gente capaz de tudo e capaz de nada, pessoas magníficas e medíocres, boas e más como as cobras, afetivas e frias como pinguins, generosas e doentiamente egoístas.Na minha vida, até pela responsabilidade enorme de ser guardião da confiança de milhares de associados e clientes, tenho-me deparado com tudo isso, mas a inveja continua a ser a característica que mais me impressiona e entristece. É um pecado mortal, porque mata e supõe a mentira, que é um vício, que quando se entra nele não mais saímos. Nestas crónicas escreverei sobre os três piores pecado, a inveja, a soberba e a preguiça.Coloco a inveja a par do egoísmo, são a face oposta da mesma moeda, irmãs siamesas, ervas daninhas que não conseguem viver sem tentar destruir tudo à sua volta num mecanismo doentio explicado nos livros científicos e poemas da condição humana.Sendo eu um cooperativista, a minha obrigação é redobrada. Afinal, a inveja é a antítese do cooperativismo, onde um é solidão o outro é união, onde um é tirania o outro é democracia, onde um é egoísmo o outro é comunidade.Um tema curioso. São muito poucas as pessoas que admitem ser más. Podem ser invejosas, egoístas, macabras e homicidas, mas quando são colocadas perante si próprias, na maior parte dos casos, observam o seu problema num outro ângulo. Justificam-se. E acreditam no que dizem. Isso coloca-nos perante questões interessantes e paradoxais - será o mal exterior à nossa própria vontade? Uma pergunta mística que talvez só possa ser respondida por padres e curandeiros de alma.Há egoístas que se justificam com Hobbes e o seu feroz individualismo securitário. Ou até com Freud e a condenação humana a um narcisismo que funciona como motor para a concretização de muitas ambições. Só que a história provou, em todas as épocas, o contrário. A soma de energias é sempre mais poderosa do que a solidão de uma só energia.A união de vontades é o detonador da paz e do progresso. O cooperativismo é muitíssimo mais apaziguador do que a guerra permanente de alguém assombrado de uma ambição que, quando destemperada, passa de uma coisa boa a um inferno de onde dificilmente se volta a sair.Prefiro Rousseau a Hobbes. Prefiro Camões e a sua mordaz “inveja”, a palavra que fecha o seu/nosso épico – Os Lusíadas é um poema que vale mais do que todas as doutrinas ultraliberais que têm o desplante de tratar Adam Smith ou Stuart Mill como párias. Prefiro o pessimista estrutural de Schopenhauer, que coloca o egoísmo e a inveja na fila primeira de todas as desgraças humanas, afirmando ser a marca dos profundamente infelizes, a todos os que possam ser indicados como exemplos de uma vitoriosa ganância. Prefiro Aristóteles que nos explicou que o invejoso não está preocupado com o ter menos, mas com o sucesso de quem inveja, ou Santo Agostinho que vê os invejosos como os que odeiam a felicidade alheia. Prefiro, por fim, o nosso Espinoza que vê a inveja como um “vício triste”, um sentimento filho da profunda ignorância e ignóbil fragilidade.Entrámos em agosto. O mês de Augusto, imperador de Roma, que se definiu a si próprio como o “primeiro entre iguais”. Uma frase que ficou e não nos permite esquecer que o combate principal é connosco e as nossas tristes tentações. Nunca esquecerei de o dizer. manuel.guerreiro@ccamtv.pt