A inteligência particular de interpretar o mundo

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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Maria Manuel Viana adorava a Feira do Livro. Parecia, tenho de o dizer, uma bizarria fora de contexto. Era uma pessoa privada, sofria de amusia, não apreciava música, embora conseguisse tolerar a banda sonora de um dos seus filmes de vida, One From the Heart, de Francis Ford Coppola (banda sonora composta por Tom Waits, com a incrível Crystal Gayle lá para os idos de 1982). Não gostava de barulho ou de situações atoladas de gente. Mas gostava da Feira do Livro de Lisboa e era vê-la, a aguentar a torreira do sol massacrante de junho, antes do vento se levantar, no Parque Eduardo VII, sempre com um sorriso.

Poderia não assinar nenhum exemplar, era indiferente. Fumava cigarros, cumprimentava à direita e à esquerda, sempre gentil, mas desligada da conversa, de certa forma ausente. O que lhe importava era a aventura sociológica da observação.

Como acontece com tantos escritores, ver os outros é uma forma de incentivar a criatividade e acender a chama da escrita. Faz-me falta aquela inteligência particular de interpretar o mundo. Tínhamos um jogo sobre o qual não falávamos no período de vida que mediava as coisas da vida e a Feira do Livro, com os seus stands pequenos e grandes, escritores com mais ou menos ego mexido: tentávamos adivinhar as vidas secretas de quem passava, o género de livro que poderiam escrever, caso fossem dados à escrita, os atritos amorosos, as fantasias por cumprir.

Sofrer de excesso de imaginação é uma bênção nestes exercícios criativos, mas Maria Manuel Viana apreciava especialmente um lado negro e, com um sentido de humor que reservava para algumas trocas de e-mail, alimentava-se interiormente dessas possibilidades inventadas e brindava os amigos com as descrições mais hilariantes de sempre.

Não era uma mulher do riso, e não sendo bisonha, como certa escritora me garantiu ser, tinha um sentido de humor que apenas se deixava ver nesses e-mails de relato da feira, das vaidades e dos pequenos desajustes que observava.

Faz-me falta a Maria Manuel, os e-mails, a sua autoficção e as manias, que intervalava com um cigarro e um Martini. Os leitores não suspeitarão, mas garanto-vos que ela vos faz falta. Por ser capaz de vos ver – de nos ver – com a perspicácia de uma máquina de Raio-x.

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