O ministro da Administração Interna, Luís Neves, quebrou o silêncio sobre os casos que o têm envolvido nos últimos meses. Numa conferência de imprensa muito aguardada, admitiu algumas falhas de cariz administrativo, mas negou qualquer ilícito criminal. “Estive sempre do lado do bem”, afirmou, acrescentando que se sente “legitimado” e “empoderado” para continuar no Governo.A intervenção surge numa fase de menor pressão mediática, depois de semanas em que vieram a público vários episódios ocorridos durante o período em que dirigiu a Polícia Judiciária (PJ): a realização de obras numa residência familiar por um empreiteiro que presta serviços à mesma polícia; a não entrega das declarações de rendimentos e património durante anos; e a decisão de entregar a esse mesmo empreiteiro um atrelado com amoníaco apreendido numa operação policial, cujos contornos exatos ainda não estão totalmente esclarecidos. . Luís Neves apresentou explicações para a maioria destes pontos. Contudo, permanece um elemento que exige análise: o modo informal, pouco documentado e assente em procedimentos “sem papéis” com que, aparentemente, dirigia a PJ. Essa informalidade é visível no processo de entrega do atrelado ao empreiteiro João Carvalho. O ministro sustenta que tudo foi feito de acordo com a lei, mas a ausência de documentação formal obriga a clarificar, entre outros aspetos, que entidades foram contactadas na consulta ao mercado que terá ocorrido antes da entrega do material.É igualmente necessário perceber por que razão a Marinha não assumiu a guarda do amoníaco: se por falta de espaço, por ausência de condições de segurança (segundo o Correio da Manhã, os militares temiam o risco de explosão, devido às altas temperaturas que se fizeram sentir em agosto do ano passado) ou por outro fundamento. E, caso a segurança fosse uma preocupação, importa saber que acompanhamento foi assegurado pela PJ enquanto os bidões estiveram à guarda do empresário de Barcelos. Houve algum risco para os trabalhadores da empresa e para os residentes na área?A informalidade levanta ainda outras questões: deve um alto dirigente da Administração Pública adjudicar contratos a um empreiteiro que o próprio descreve como “amigo”? E deve recorrer aos serviços desse mesmo empreiteiro para obras num imóvel familiar, criando um potencial conflito de interesse e abrindo espaço a interpretações que fragilizam a confiança institucional que deve existir num ministro da Administração Interna? ."A eficácia operacional não dispensa o cumprimento de procedimentos formais, sobretudo em funções de topo. A informalidade pode parecer inofensiva em certos contextos, mas pode criar precedentes perigosos.”. A integridade e o percurso profissional de Luís Neves são amplamente reconhecidos, apesar destes casos. Mas a eficácia não pode sobrepôr-se ao cumprimento de procedimentos formais, sobretudo quando está em causa o exercício de responsabilidades públicas de topo. A informalidade pode parecer inofensiva em certos contextos, se permitir resolver os problemas mais depressa, mas ao mesmo tempo arrisca criar precedentes que serão depois utilizados por pessoas menos bem intencionadas. Por fim, que posição adotaria o polícia Luís Neves se estivesse perante um responsável público que tivesse tomado decisões semelhantes? No mínimo, colocaria algumas questões. Do Luís Neves ministro espera-se, por isso, que tenha abertura e humildade q.b. para responder com elementos factuais às questões dos jornalistas, dos deputados e das autoridades no inquérito em curso. E quanto mais depressa o fizer, melhor.