A18 de janeiro de 2002, Celso Daniel, prefeito da cidade de Santo André, na periferia de São Paulo, e coordenador da campanha que elegeria Lula da Silva como presidente no final desse ano, saiu de uma churrascaria de São Paulo acompanhado pelo braço-direito Sérgio Silva, conhecido como Sombra.O carro, guiado por Sombra, foi então perseguido, alvejado e encurralado por três viaturas. Dois dias depois, o corpo do prefeito foi encontrado com oito tiros no rosto e sinais de tortura. Sombra escapou ileso.Segundo a polícia, um grupo de seis criminosos, liderado por Ivan Silva, cuja alcunha é Monstro, executou o crime por engano. Monstro contou que o grupo perseguia um comerciante, foi despistado por ele e por isso decidiu sequestrar e matar o primeiro passageiro de um veículo caro que visse no caminho.Ao saber que a polícia classificara o assassinato como “crime comum”, um irmão de Celso Daniel pediu a reabertura do processo, alegando motivação política. O Ministério Público acompanhou a tese, segundo a qual Sombra fora o cérebro do crime por estar envolvido num esquema de corrupção que o prefeito pretendia denunciar e que incluía beneficiários como José Dirceu, braço-direito de Lula no PT.Ainda de acordo com a tese, Sombra pedira a Dionízio Severo, um criminoso que se evadira de helicóptero de uma prisão dois dias antes do crime, para contratar o tal grupo de criminosos.As teorias da conspiração ganharam corpo na opinião pública por, meses depois, Severo ter sido esfaqueado na prisão. E Sergio Orelha, criminoso em cuja casa Severo se abrigara, e Otávio Mercier, um investigador de polícia que lhe ligara na véspera do sequestro, acabarem mortos a tiro na sequência.Antonio, o empregado de mesa que serviu o prefeito e Sombra na noite do sequestro, também foi executado. Paulo Brito, testemunha deste último crime, idem. Iran Redua, agente funerário que reconheceu o corpo, e Carlos Printes, médico legista que atestou marcas de tortura, apareceram mortos nos dois anos seguintes.O PSDB, principal rival do PT à época, foi então acusando por todos estes anos o partido de Lula de estar por trás do crime. Arthur Virgilio Neto, senador do partido, disse que o caso não deixava o governo (de Lula) dormir, Álvaro Dias, também senador, considerou o presidente indigno de respeito popular e a deputada Mara Gabrilli acusou Gilberto Carvalho, secretário de Lula, de ser “o homem do carro preto” que levava dinheiro de Santo André a Dirceu. Carvalho repudiou as afirmações da rival, dizendo que o crime lhe “doía pessoalmente”, Dirceu vem dizendo que o PSDB tentou “irresponsavelmente” ligá-lo ao esquema, Lula reafirma sempre que acusar o PT no caso é “uma indignidade” da direita.Vem a lembrança deste trágico crime a propósito do anúncio na imprensa de que os tão indignados PT e PSDB cogitam aliança eleitoral para 2026 precisamente em Santo André, a cidade gerida pelo prefeito assassinado, em nome da incurável realpolitik brasileira que tudo cura.