A Igreja no tempo da incerteza: liderar sem poder, influenciar sem impor

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Num mundo onde o poder se mede em capacidade militar, domínio tecnológico e controlo financeiro, a Igreja parece, à primeira vista, deslocada. Não tem exércitos, não controla mercados, não define taxas de juro. E, no entanto, continua a ser uma das poucas instituições globais com presença simultânea em quase todos os territórios, culturas e realidades sociais.

Este paradoxo, ausência de poder formal, mas presença universal, é precisamente o seu maior ativo no novo contexto político e económico.

O mundo mudou. A guerra voltou à Europa, o Médio Oriente volta a arder com tensão crescente em torno do Estreito de Ormuz, e as cadeias de abastecimento tornaram-se armas geopolíticas. A economia deixou de ser apenas eficiência: passou a ser resiliência. A política deixou de ser apenas governação: passou a ser sobrevivência estratégica.

E a Igreja? Também ela enfrenta um ponto de inflexão.

O primeiro desafio é a relevância. Numa sociedade acelerada, digital e pragmática, a fé já não é herdada, é escolhida e, muitas vezes, descartada. A linguagem tradicional já não chega. A autoridade institucional já não basta. O papa enfrenta hoje algo mais exigente do que liderar uma religião: reconstruir confiança num mundo que desconfia de tudo.

O segundo desafio é a coerência. Num tempo de transparência total, qualquer incoerência torna-se global em minutos. A Igreja não pode pedir simplicidade e viver em complexidade. A credibilidade deixou de ser simbólica, é operacional.

O terceiro desafio é o posicionamento. Num mundo polarizado, onde tudo tende a ser capturado por agendas políticas, a Igreja tem de resistir a ser instrumentalizada. Nem bloco, nem ideologia. Se perder essa independência, perde a sua voz.

Mas há sinais de adaptação. Durante a pandemia, estruturas da Igreja transformaram-se em centros de apoio, muitas vezes mais rápidas do que os próprios estados. Em várias cidades, paróquias criaram redes de apoio a idosos isolados. Em países africanos e da América Latina, comunidades ligadas à Igreja lideram projetos de microfinanciamento, Educação e Saúde, mudando vidas de forma silenciosa, mas estrutural.

Também o papa tem assumido uma posição clara sobre conflitos globais, recusando alinhar com blocos e insistindo no diálogo. Num mundo de respostas rápidas e radicais, essa insistência é liderança contracorrente.

Mas será que chega?

O futuro da Igreja não estará apenas na mensagem, mas na forma como a executa.

Primeiro: proximidade concreta. Menos estrutura, mais presença real. Estar onde os problemas acontecem, não apenas onde os rituais se celebram.

Segundo: linguagem nova para verdades antigas. Não mudar o essencial, mas traduzi-lo para um mundo marcado por ansiedade, solidão e incerteza.

Terceiro: ação mensurável. Mostrar impacto. Famílias apoiadas, jovens reintegrados, comunidades transformadas. Não para competir, mas para provar relevância.

O papa, neste contexto, não é apenas líder espiritual. É um gestor de influência global. Não decide políticas, mas molda consciências. Não controla mercados, mas influencia comportamentos.

E talvez seja aqui que reside o seu verdadeiro poder.

Num mundo que perdeu referências estáveis, a Igreja pode voltar a ser uma âncora, não pela imposição, mas pela consistência. Não pelo discurso, mas pela ação.

A questão já não é se o mundo precisa da Igreja.

A questão é se a Igreja conseguirá responder ao mundo que hoje existe. Acreditamos e esperamos que sim!

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