Há uma pergunta que a Europa parece cada vez menos disposta a fazer a si própria: o que acontece a uma civilização quando deixa de acreditar nos valores que a construíram?
Os tumultos em França, as tensões nas escolas e os sinais de alarme que chegam de outros países europeus não podem ser explicados apenas pelas desigualdades sociais ou pela contestação juvenil. Há também uma crise de referências, de autoridade e de transmissão de um património comum. Os resultados do PISA confirmaram a quebra das aprendizagens em França (e não só…), acompanhando uma tendência internacional. Não seria rigoroso atribuir esse declínio à imigração ou à radicalização religiosa. Mas seria igualmente imprudente ignorar os riscos de uma escola que perde capacidade para transmitir conhecimentos, exigir disciplina e formar cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres.
A escola não ensina apenas Matemática, História ou Gramática: ensina a viver em sociedade, a respeitar regras comuns e a reconhecer a legitimidade da lei. Quando essa missão enfraquece, abrem-se espaços que podem ser ocupados por ideologias que oferecem identidade e pertença em troca da submissão individual.
O testemunho do escritor sírio Omar Youssef Souleimane, em Les Héritiers de la Haine, chama a atenção para a influência de correntes islamistas junto de alguns jovens franceses. Importa, porém, distinguir o Islão enquanto religião, os muçulmanos enquanto indivíduos e o islamismo político enquanto projecto ideológico. Confundi-los é injusto; recusar discutir o fundamentalismo é igualmente um erro.
A liberdade religiosa não confere o direito de limitar a liberdade alheia. A igualdade entre homens e mulheres, a liberdade de consciência e a supremacia da lei civil não são valores facultativos, negociáveis em função de convicções religiosas.
A integração não pode significar apenas a concessão de direitos: implica também deveres, respeito pelas instituições e aceitação das regras fundamentais da sociedade. Combater o racismo não exige silêncio perante o extremismo, tal como combater o islamismo radical não justifica discriminar os muçulmanos.
O problema europeu não é a diversidade. É a incapacidade de a conciliar com uma identidade cívica comum. Uma sociedade que hesita em transmitir a sua História e defender os seus princípios deixa um vazio que outros estão disponíveis para preencher. A Europa não precisa de renunciar à tolerância para defender a liberdade. Precisa de compreender que a tolerância sem princípios se transforma em indiferença e que nenhuma democracia sobrevive indefinidamente se deixar de acreditar nos valores que a sustentam.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico