Estreado esta semana nas salas de cinema, Cherchez la Femme, derradeiro filme de António da Cunha Telles (1935-2022) é um verdadeiro óvni. Por ser um filme póstumo? Sim, é um facto: o realizador trabalhava na respetiva pós-produção quando faleceu, tendo sido finalizado por Pandora da Cunha Telles, sua filha, e André Rosa Carvalho. O certo é que essa condição póstuma está longe de ser um dado essencial para lidarmos com a sua estranha, porventura incómoda, sedução.Sentimos a tentação de encerrá-lo na categoria dos “filmes-testamento”, o que talvez seja inevitável: o fecho de um ciclo temporal tende a favorecer a ideia de que o silêncio brutal da morte se transfigura numa “mensagem” capaz de transcender as fronteiras do tempo. Ainda assim, semelhante hipótese satisfaz-se com um enquadramento fúnebre que não esgota, longe disso, o insólito misto de tragédia e sarcasmo que percorre todos os momentos de Cherchez la Femme..Afinal de contas, nestes tempos de narrativas deterministas, limitadas às vulgaridades do politicamente correto, procurando a consagração dos sempre disponíveis moralismos televisivos, quem se lembraria de adaptar A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro? Quem arriscaria revisitar esse texto de 1914, enredado nas atribulações de um amor infinitamente ambíguo, exuberante e suicidário? Mais ainda: quem ousaria pôr em cena uma sexualidade alheia ao moralismo das fronteiras de género em que o nosso pobre século XXI se debate, para mais celebrando a figura de uma mulher que, decididamente, pertence a uma galeria ancestral de figuração (e celebração) do feminino?Pois bem, Cunha Telles fez tudo isso. Não para satisfazer a moda da provocação (que, em muitos casos, passou a ser sinónimo do mais medíocre conformismo político), muito menos à procura de qualquer atualização “temática” de Mário de Sá-Carneiro. Antes porque as aventuras e desventuras de Lúcio (Ângelo Rodrigues), Ricardo (Romeu Costa) e Marta (Joana Barradas) preservam, muito para lá do tempo em que foram escritas, um gosto de romance, ou melhor, um impulso romanesco.."Personalidade fulcral do Cinema Novo português, Cunha Telles tinha ainda um filme para nos surpreender e seduzir.”.O que é o romanesco? Longe de qualquer definição científica, digamos que o romanesco existe como “aquilo” que abraça o impulso de morte que contamina todas as células do romantismo, ao mesmo tempo que dele se distancia através da ironia erótica e da irrisão dramática. No limite, Cunha Telles oferece à escrita de Mário de Sá-Carneiro a mais cândida materialização cinematográfica, relançando a pergunta: naquele intrigante triângulo amoroso, Marta é a encarnação perfeita de um ideal feminino ou o fantasma de um delírio masculino? A pergunta multiplica-se num puzzle sempre incompleto, com as possíveis respostas suspensas num nevoeiro de ternura.Realizador de O Cerco (1970), uma das “bandeiras” do Cinema Novo português, produtor de alguns dos seus títulos emblemáticos como Os Verdes Anos (Paula Rocha, 1963), Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou Domingo à Tarde (António de Macedo, 1966), Cunha Telles deixa-nos, assim, uma herança singular que não se aquieta no congelamento cultural do nosso mundo de telenovelas, futebol e Reality TV. Ou como esclarece o Lúcio de Mário de Sá-Carneiro, o seu “crime passional” resume-se através de uma expressão romanesca: “Cherchez la femme”. Tanto pior se já quase ninguém sabe falar francês.