Shakespeare escreveu Hamlet, obra em que se debate a sucessão de um líder e em que a família deixa de ser apenas família e passa a ser ator político.E, uns séculos antes, Aristófanes imaginou uma comédia, A Revolução das Mulheres, cuja ação decorre logo após a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso e a profunda crise política e económica da cidade que se lhe seguiu. Nela, as mulheres concluem que os homens, após anos de mau governo, corrupção e guerras, perderam o direito de dirigir a pólis e elaboram um plano meticuloso. Antes do amanhecer, vestem roupas masculinas, colocam barbas falsas e dirigem-se à Assembleia Popular, órgão exclusivo a cidadãos homens, onde, aproveitando a baixa participação e o disfarce, conseguem formar maioria e aprovar uma proposta revolucionária: o governo de Atenas passa para as mulheres.Michelle Bolsonaro não conhece Aristófanes, nem Shakespeare: só lê o Antigo Testamento, o que não é nada mau, tendo em conta que na mesa de cabeceira do outro lado da cama de casal que partilha com o pai de Flávio Bolsonaro está A Verdade Sufocada, livro de memórias de Brilhante Ustra, o sádico chefe do órgão de tortura da ditadura militar. Adiante.A atualidade da política do Brasil, mais especificamente da direita do Brasil, ou ainda mais especificamente da extrema-direita do Brasil, evoca Hamlet por haver um líder fantasmagórico e familiares, Flávio e Michelle, a guerrearem-se pela sucessão. Mas lembra mais ainda A Revolução das Mulheres porque na Atenas de Aristófanes, ao contrário da Dinamarca de Shakespeare, a trama centra-se numa guerra política dos sexos.Flávio, o escolhido pelo pai para concorrer contra Lula da Silva nas eleições de outubro, terá dito a Michelle que a madrasta não entende nada de política. Em causa, a oposição dela a uma aliança dele com Ciro Gomes, um feroz crítico do bolsonarismo, que resultaria, na prática, no apoio para o Senado a um próximo dele em detrimento de uma aliada dela. Michelle gravou então um vídeo a escancarar a crise que abalou as estruturas da candidatura de Flávio e dividiu a extrema-direita. E como se deu essa divisão? Ao lado de Michelle surgiram Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Janaína Paschoal, subscritora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, Celina Leão, governadora do Distrito Federal, e até Janja da Silva, atual primeira-dama, se solidarizou.Por Flávio manifestaram-se o ex-secretário da Cultura (e ex-ator de Malhação) Mário Frias, o ex-diretor do Serviço de Inteligência do bolsonarismo (hoje foragido da Justiça brasileira nos EUA) Alexandre Ramagem, o senador (e coordenador da campanha) Rogério Marinho e o jornalista (e neto do último presidente em ditadura) Paulo Figueiredo, que defendeu até o fim do voto feminino em favor do voto-familiar-decidido-pelo-patriarca.Citando Praxágora, a líder de A Revolução das Mulheres: “Se um homem é bom por um dia, é canalha nos dez seguintes.” Ou parafraseando Marcellus, em Hamlet: “Algo está podre no reino do bolsonaristão.”