A guerra já entrou na fábrica

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Há noites em que uma empresa percebe que o mundo mudou. Não por causa de um comunicado oficial, nem de um debate televisivo. Percebe-o quando uma peça crítica deixa de ser apenas uma peça, quando um embarque deixa de ser apenas logística, quando um cliente deixa de pedir prazo e começa a pedir garantias. É nesse momento que a geopolítica deixa de ser um tema distante e entra, sem pedir licença, dentro da operação.

É isso que está a acontecer com muitas empresas industriais. A guerra no médio oriente e a disrupção em torno do Estreito de Ormuz devolveram à economia uma verdade que a Europa preferiu esquecer: a estabilidade energética, logística e comercial não é um dado adquirido. O estreito continua a ser central para o petróleo mundial, e a IEA descreveu esta fase como a maior disrupção de oferta da história do mercado petrolífero.

Para quem fornece o setor do oil&gas, isto não é teoria. Na indústria de equipamento rotativo, onde trabalho - compressores, ventiladores, sopradores, turbinas, selagens e serviços críticos - um atraso pode significar uma paragem industrial, uma mobilização falhada ou a erosão de uma relação construída durante anos.

O problema já não está apenas no preço da energia. Está no seguro, no transporte, no financiamento, na previsibilidade e, acima de tudo, na confiança. Os mercados físicos de crude e combustíveis dispararam, e a navegação comercial no golfo entrou num nível de risco que levou a organização marítima internacional a pedir um corredor seguro para milhares de navios retidos na zona.

Durante demasiado tempo, muitas empresas geriram como se o mundo fosse linear. Hoje, já não é. E é por isso que este tempo vai separar gestores de líderes. O gestor reage ao choque. O líder lê o mapa antes da próxima rutura. Revê dependências, protege stock crítico, reforça liquidez, aproxima operações de finanças, encurta decisão e fala com os clientes antes de o problema chegar ao contrato.

Portugal, neste contexto, não deve pensar pequeno. Tem hoje uma posição mais protegida do que outros países europeus: 79% da eletricidade consumida nos dois primeiros meses do ano veio de fontes renováveis, o governo aprovou um mecanismo de contenção de preços em caso de crise energética, e 78% do gás consumido em fevereiro entrou pelo terminal de Sines. Mas proteção não é estratégia. Estratégia é transformar vantagem relativa em ambição industrial.

Portugal pode afirmar-se como plataforma atlântica de confiança para energia, manutenção industrial, engenharia e exportação de serviços técnicos. Pode apoiar empresas expostas a mercados exigentes com melhor crédito à exportação, seguro de risco e velocidade administrativa. Pode, sobretudo, perceber que indústria não é uma herança do passado: é infraestrutura de soberania económica.

Num mundo mais duro, não bastará às empresas serem eficientes. Terão de ser resilientes. Não bastará crescer. Terão de continuar a entregar quando os outros falham.

A guerra já entrou na fábrica. E os países que não perceberem isso a tempo não perderão apenas competitividade. Perderão lugar.

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