A guerra e os seus ecrãs

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Reencontro Guerra e Cinema, um livrinho de Paul Virilio (1932-2018), filósofo e ensaísta francês que dedicou especial atenção às relações entre tecnologia e comunicação — publicado em 1984 pelos Cahiers du Cinéma, foi lançado entre nós em 2019 pela editora Orfeu Negro, com tradução de Luís Lima. De que se trata? Uma reflexão em ziguezague sobre a evolução das armas de guerra e o seu envolvimento, porventura a sua cumplicidade, com certos dispositivos técnicos e figurativos do cinema. Daí o subtítulo: “Logística da percepção”. 

A cinematização da guerra aconteceu muito cedo, durante a Primeira Guerra Mundial, com “o uso intensivo de sequências fílmicas no reconhecimento aéreo”. Com efeitos muito concretos: “Só esse reconhecimento era capaz de levar à presença dos estados-maiores uma representação reatualizada da batalha, num terreno constantemente abalado, em que a artilharia faria desaparecer, um após outro, os marcos topográficos necessários à organização dos combates.” 

A nova logística é indissociável de uma “guerra industrial em que a representação dos acontecimentos domina a apresentação dos factos.” O que pode justificar uma pergunta dos nossos dias: como é que Virilio analisaria a representação da guerra na atual conjuntura televisiva? 

Mesmo em termos meramente descritivos, o terreno é pantanoso, desde logo porque aquela dicotomia (“representação/apresentação”) levará de imediato muitos protagonistas televisivos a perguntarem se estamos a sugerir que as suas notícias mentem. Trata-se, aliás, de um sistemático (e muito curioso) acto falhado que justifica uma pergunta cândida: porque é que a discussão das linguagens televisivas é confundida com uma automática acusação de falsidade “factual”? À distância, Virilio ajuda-nos a prosseguir, lembrando que a história das batalhas se enlaça com a história da “metamorfose dos seus campos de percepção.” 

A retórica audiovisual dos nossos dias justifica uma pergunta: como é representada a guerra no espaço televisivo? 

Daí outra pergunta: quais são as formas de percepção que dominam a representação da guerra (em boa verdade, das guerras) no pequeno ecrã? Vivemos num permanente folhetim que, como qualquer folhetim, aplica uma retórica de repetição — repetição de personagens, repetição de imagens. Literalmente, entenda-se: há um elenco que se repete todos os dias, há mesmo qualquer coisa de surreal no facto de alguns protagonistas políticos (com óbvio destaque para Donald Trump) utilizarem tal retórica para fazerem a sua própria guerra mediática sem que, de um modo geral, ninguém nas televisões pare um momento para pensar a pueril objetividade do seu ecrã. 

A repetição de imagens tornou-se mesmo a base “informativa” de toda uma linguagem: o mesmo conjunto de imagens (por vezes apenas uns breves segundos) é tratado, em loop, como um mantra audiovisual que acompanha as muitas “análises” que, como se prova, dispensam qualquer tipo de figuração do acontecimento. No limite, o espaço fica reduzido à bidimensionalidade de um videojogo arcaico e o tempo torna-se uma coordenada sem importância, ou melhor, alheia a qualquer sensação de duração. 

Francis Ford Coppola, à esquerda, na guerra de Apocalypse Now (1979).
Francis Ford Coppola, à esquerda, na guerra de Apocalypse Now (1979).

Numa cena de Apocalypse Now (1979), Francis Ford Coppola surgia no papel de um repórter de televisão que, ao lado do seu operador de câmara, gritava para os soldados: “Não olhem para a câmara! Isto é para a televisão!” Era uma forma de expor outra retórica: a da reportagem entendida como efeito de real compulsivo, por qualquer preço. 

Agora, essa encenação tornou-se dispensável. O que mais importa é a permanência de um fluxo narrativo que, à maneira de uma telenovela, vive de repetições que permitem a “entrada” do espectador em qualquer momento. Mesmo não esquecendo que Virilio escreveu o seu livro numa conjuntura global bem diferente, dá que pensar o facto de ele falar de “ecrãs de simulação” ao serviço de uma “guerra que se parece cada vez mais com um cinema permanente, uma televisão em funcionamento ininterrupto...” 

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