A guerra da Ucrânia está terminando?

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Três líderes. Três convicções. Três desilusões.

Putin acreditava que esmagaria a resistência ucraniana em questão de dias, confiante na superioridade económica e militar da Rússia. Zelensky apostava que, com o respaldo dos Estados Unidos e da Europa, não apenas repeliria os invasores como reconquistaria a Crimeia e conduziria a Ucrânia à NATO. Trump, em campanha, prometia encerrar o conflito em 24 horas, caso chegasse à Casa Branca. Nenhuma dessas “certezas” sobreviveu ao contato com a realidade. A guerra na Ucrânia completa agora quatro anos — praticamente a mesma duração da Primeira Guerra Mundial — e segue sem vencedor à vista.

Como nenhum dos lados foi decisivamente derrotado, encerrar o conflito exige negociações e concessões. É Trump quem hoje conduz esse esforço, e o simples fato de um presidente norte-americano precisar liderar as discussões expõe, de forma constrangedora, a incapacidade dos líderes europeus de solucionar uma guerra travada em sua própria região.

As motivações de Trump para buscar um acordo são, como de costume, múltiplas e não inteiramente altruístas. Washington quer criar distância entre Moscovo e Pequim, encarada como a principal ameaça estratégica dos Estados Unidos. Há também o interesse em normalizar as relações econômicas com a Rússia — inclusive em benefício de setores próximos ao próprio Trump. E há, claro, a ambição pessoal: a Casa Branca já tratou de divulgar a imagem de um "Presidente da Paz", título que, não por acaso, poderiacontribuir para uma candidatura ao Prêmio Nobel.

Mas os obstáculos à paz são formidáveis.

O primeiro é político e moral. Para Zelensky, reconhecer que as promessas do início da guerra não se cumpriram significa olhar nos olhos do povo ucraniano e admitir que os milhares de mortos, os feridos, a destruição e o sofrimento não produziram os resultados prometidos.

O segundo obstáculo é estrutural. Há países, setores e indivíduos que lucram com a continuação do conflito — o complexo industrial-militar em primeiro lugar, mas também setores e figuras políticas e que extraem poder e relevância da guerra. Nesse grupo se inclui o próprio Zelensky, cujo futuro político após um acordo de paz é, no mínimo, incerto.

O terceiro nó é territorial. Putin exige o controle pleno das quatro regiões ucranianas que a Rússia invadiu e formalmente anexou, incorporando-as à Constituição da Federação Russa. Abrir mão desse ponto seria, aos olhos do Kremlin, uma derrota inaceitável.

O quarto impasse é sobre segurança. Zelensky demanda garantias concretas contra invasões futuras — incluindo a presença de tropas de países da NATO em solo ucraniano. Moscou recusa categoricamente qualquer formulação nesse sentido.

Por fim, há a questão da neutralidade. Putin condiciona um acordo ao desarmamento parcial da Ucrânia e ao seu retorno à condição de país neutro, tal como previsto no Artigo 9 da Declaração de Soberania do Estado Ucraniano, de julho de 1990 — um documento que Kiev preferiria ver definitivamente enterrado.

A combinação desses fatores produz um impasse que os Estados Unidos, até agora, não conseguiram desatar. Zelensky aposta que Trump não abandonará as negociações — seu ego de "Presidente da Paz" não o permitiria. E conta com o apoio europeu para sustentar o esforço de guerra enquanto as conversas se arrastam. Putin, por sua vez, parece calcular que o tempo joga a seu favor: que a continuação do conflito lhe permitirá avançar no mapa sem precisar ceder na mesa.

Se nada mudar, a paz ainda parece distante.

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