A gestão de calamidades e o papel do poder local

Ana Abrunhosa

Presidente da Câmara Municipal de Coimbra

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A atualidade caracteriza-se por uma crescente vulnerabilidade, marcada pela frequência e intensidade de calamidades, tais como incêndios, cheias, tempestades e crises sanitárias, que revelam a fragilidade das estruturas sociais. Aproxima-se a época de fogos florestais e previsões meteorológicas que indicam temperaturas elevadas, existindo um risco acrescido em diversas regiões do país, nomeadamente no Vale do Mondego.

Neste contexto, a seleção dos decisores autárquicos reveste-se de uma importância maior. Ao exercer o direito de voto, a população delega a estes líderes a responsabilidade por decisões que podem determinar, de forma literal, a diferença entre a vida e a morte.

1. O pilar da prevenção

A prevenção e a gestão de calamidades, embora sob a égide das autoridades competentes, constituem uma responsabilidade coletiva. Nesta fase, encontra-se em curso a fase crucial de prevenção e preparação para a época de incêndios, abrangendo a gestão de combustível (limpeza de terrenos), a manutenção de infraestruturas (assegurando, por exemplo, a acessibilidade dos pontos de água) e a vigilância ativa, que engloba a monitorização de queimas e queimadas, bem como a sinalização das zonas de maior risco.

A articulação com as entidades sub-regionais de Proteção Civil revela-se fundamental. Na Região de Coimbra, a Comunidade Intermunicipal (CIM) tem evidenciado visão estratégica e liderança, através de ações coordenadas no terreno, desde a vigilância e limpeza até à atuação conjunta. Esta força regional é determinante nos processos de prevenção, combate e recuperação, sendo imperativo consolidar esta cooperação.

2. Resposta imediata: rapidez, proximidade e coordenação

Em situações de calamidade, a atuação deve ser imediata, não havendo espaço para consultas demoradas ou mecanismos tradicionais de participação cidadã. O tempo constitui o recurso mais escasso e a celeridade o fator decisivo para a sobrevivência. Nestes momentos excecionais, espera-se do cidadão uma participação ativa e responsável, evitando a disseminação de boatos e notícias falsas, que apenas fomentam o pânico e dificultam o socorro.

A eficácia da resposta operacional depende de uma interligação robusta entre os diversos níveis do poder local e as forças de segurança e socorro (Proteção Civil, bombeiros, PSP, GNR, Polícia Municipal, Segurança Social, INEM, Cruz Vermelha e serviços de saúde).

Neste quadro de partilha de responsabilidades, a câmara municipal detém a coordenação da resposta macro, sendo o êxito da operação diretamente dependente das juntas de freguesia, que atuam como “postos avançados” do Estado. Estas entidades possuem um conhecimento detalhado do território, rua a rua, casa a casa, sendo insubstituíveis na identificação de perigos iminentes, orientação dos meios de socorro e garantia de apoio humanizado aos mais vulneráveis, como idosos, pessoas isoladas ou infoexcluídas.

3. Comunicação em tempos de crise

Para assegurar a eficácia da resposta, a comunicação institucional deve pautar-se pela transparência, clareza e ser humanizada. Trata-se de um equilíbrio delicado: comunicar a verdade sem gerar pânico e falar sempre que seja oportuno, evitando excessos. Uma comunicação adequada combate o medo, fornece informação precisa sobre riscos e pontos de apoio, inspira confiança e induz comportamentos apropriados na população. Esta confiança recíproca é o elo que permite a aceitação e execução de decisões rápidas, frequentemente tomadas com informação incompleta.

4. Pós-calamidade: reconstrução e dignidade

Ultrapassada a emergência, o desafio transita para a reconstrução. Reconstruir não se limita à reparação de infraestruturas, implica a gestão rigorosa dos fundos públicos, com ética, devolvendo dignidade e estabilidade às famílias, infraestruturas públicas e empresas afetadas. Cada recurso deve ser aplicado com sentido de justiça, assegurando que a recuperação material contribua para prevenir futuras vulnerabilidades, aprendendo com os erros do passado.

Em última instância, abordar a ruína e a reconstrução é refletir sobre a capacidade das instituições em responderem com humanidade, articulação local e competência. A diferença entre o caos e a recuperação reside na escolha de lideranças preparadas e responsáveis. Reconstruir territórios é um imperativo logístico, reconstruir a confiança, a segurança e a dignidade humana é a missão essencial e insubstituível do poder local.

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