A ‘flânerie’ e o prazer de ler

Luís Castro Mendes

Diplomata e escritor

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Nas excelentes edições dos Poets and Dragons apareceu recentemente um escritor do sul, nem poeta assumido, nem sanguinário dragão, que se apresentou, com o seu lápis pronto e a sua sensibilidade à literatura medida numa balança por Vila Matas, como um flâneur, na estirpe de um Baudelaire lido por Walter Benjamin.

Chama-se esse senhor, que se passeia com proveito pela Literatura, João Ventura. Como no seu mais recente livro ele se ocupa da figura do flâneur e como eu passei quase todo o mês de março em viagem por três cidades da minha vida, a saber Estrasburgo, Viena e Paris, comecei a perguntar a mim próprio em que medida a minha viagem fora ou não uma flânerie.

E a resposta foi que não.

Por muito prazer e alegria que a minha viagem me tenha dado, ela diferiu do percurso de um flâneur num elemento essencial: a flânerie não tem objetivos. A flânerie, como a poesia, não procura, encontra — acabam por vir ter consigo as descobertas e as experiências que são as revelações e as epifanias destes percursos sem finalidade definida.

Talvez o prazer da leitura, como sugere Daniel Pennac, venha mais das leituras não-programadas, nem previstas, que nos confrontam com as grandes revelações. Mas hoje a flânerie dos mais jovens faz-se pelas imagens e pelos jogos de computador, e como conseguir que o livro entre nos sonhos dos mais novos?

Foi essa questão que vim encontrar ao regressar a Portugal, a propósito dos programas escolares de Literatura. Além da questão de um determinado autor ser obrigatório ou opcional, o dilema é outro: como tornar algo obrigatório num prazer e num enriquecimento da experiência da vida?

Acabado de regressar de uma viagem, em que as livrarias parisienses foram um dos prazeres à minha espera, não sei como responder a esta pergunta.

São os pais? Pais leitores criam filhos leitores? Não necessariamente.

São os professores? Deveriam ser, mas serão eles próprios felizes na leitura?

Pareceu-me que António Carlos Cortez teve razão ao deslocar a questão do problema da não-obrigatoriedade da leitura de Saramago para a crise do livro e da leitura na formação dos alunos e dos estudantes.

A crise não está só aí. Por todo o lado, e em Paris também, fecham livrarias ou vemos algumas transformar-se em armazéns de best-sellers (a que alguém em Portugal chamava bestas céleres...).

É preciso aprendermos a enfrentar esta situação e não simplesmente associarmo-nos num muro de lamentações. Que mundo, que civilização, estarão à nossa espera? São já os nossos netos que irão responder a todos estes desafios?

O mundo está muito pesado para a ligeireza feliz da flânerie e para a alegria da leitura.

CITAÇÃO DA SEMANA

“A posição da Fundação Saramago será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração (...) a sugestão de trocar a palavra ‘ou’ pela palavra ‘e’, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração.”

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