A Figura do Dia. O cravo de Seguro

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela.

Parece difícil de acreditar que muitos de nós não tenham orgulho num dos momentos mais bonitos e identitários de ser português – enquanto na Guerra Civil espanhola morreram mais de meio milhão de pessoas, não contabilizando os 100 mil que desapareceram, em Portugal preferimos armar as espingardas com cravos a matar-nos uns aos outros.

"António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa (...)."
"António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa (...)."FOTO: Leonardo Negrão

Os cravos são um símbolo da democracia, não necessariamente um património exclusivo da esquerda. Representam a vida em oposição à morte, a esperança em oposição ao medo, o otimismo em oposição ao fatalismo. É o símbolo da nossa inocência, de uma ingenuidade poética que me emociona e orgulha.

É também um abraço à memória de uma mulher, a dona Celeste, que começou a distribuir, por puro instinto, cravos aos soldados revoltosos, entusiasmando vendedoras de várias praças de Lisboa a fazerem o mesmo.

Não é bonito? Não é extraordinário? Não foi um verdadeiro milagre?

"Há 20 anos que um Presidente da República não entrava na Assembleia da República com um cravo na lapela."

Renegar os cravos é virar as costas ao que temos de melhor, ao símbolo mais poderoso da tolerância democrática, da liberdade coletiva e individual.

Vamos lá a ver, António José Seguro não usou o cravo na lapela por ser socialista ou de esquerda. Usou-o por ser democrata, por acreditar mais no que nos une do que naquilo que nos separa, por ser intolerante com o ressentimento dos que prefeririam que os cravos não existissem… ou a democracia.

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