Relembrámos a Paixão e Morte de Jesus. Os dias em que ser cristão é acreditar que o sacrifício mais inominável pode ter um sentido que nos transcende.É um excelente pretexto para recordar as 59 pessoas que morreram na ponte de Entre-os-Rios, fez agora 25 anos. Quando se volta à tragédia falamos quase sempre de Jorge Coelho, do pronto pedido de demissão, da sua verticalidade e coragem política. É justo, mas é terrível para a memória dos que deixaram de viver naquela noite de 4 de março.Muitas famílias de Castelo de Paiva choraram nessa madrugada e a maioria delas ainda continua num estranho e absurdo luto — 36 corpos nunca foram encontrados, é uma morte sem morte, um fim que não sossega os sonhos de quem ficou: há sempre quem acorde a meio da noite encharcado em pesadelos ou esperanças frustradas.. Foram 36 mulheres e 23 homens. Só cinco não eram de Castelo de Paiva, culpa de uma excursão a Foz Côa para ver o nascimento da Primavera com as suas vaidosas amendoeiras em flor.Jesus está na cruz. Celebrámos a Páscoa, os mais terríveis e proveitosos dias de fé. Celebrámos também o inconcebível, a monstruosidade do que nos pode tocar, mas também a rede de que precisamos para nunca deixar fugir a esperança do tanto que nos resta. Aquelas pessoas não regressaram a casa, mas despediram-se da vida com o cheiro das amêndoas doces nas flores brancas e rosa nascidas nos troncos das árvores. A maioria não voltou a ser encontrada, está viva para sempre ou pronta a ressuscitar.