A Figura do Dia. Luís Neves e o amigo

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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A única coisa errada no caso que envolve o ministro da Administração Interna é a prova de um paradoxo. Por um lado, é o homem com folha limpa, um grande polícia e um pilar de confiança; por outro, cultiva o pequeno favor, a cunha sem importância e as amizades úteis que, nunca se sabe, podem servir para arranjar azulejos, pintar paredes ou desenrascar uma obra. Um português de gema.

Incomoda que seja Luís Neves, o mais credível de todos os ministros; preferia que fosse um outro a ter como amigo aquele empreiteiro.

"Foi uma desilusão, mas é evidente que o ministro não pode sair. Sacrificar Luís Neves seria uma enormidade difícil de justificar, até por ser um pecadilho ético familiar a uma grande parte dos portugueses – alguém atira a primeira pedra? Eu não."

Por mais competente que seja o homem, não me cabe na cabeça que o ex-diretor da Polícia Judiciária não soubesse o quanto era desaconselhável pedir ajuda a um fornecedor para pôr num brinquinho a sua chafarica de fim de semana.

E não ajuda (deixe-me que lhe diga, caro ministro), entrar na discussão sobre se a piscina é um tanque ou se o tanque é uma piscina – o que dariam Eça e Ortigão para incluir esta ópera bufa nas suas Farpas?

Foi uma desilusão, mas é evidente que o ministro não pode sair. Sacrificar Luís Neves seria uma enormidade difícil de justificar, até por ser um pecadilho ético familiar a uma grande parte dos portugueses – alguém atira a primeira pedra? Eu não. Já deitei a minha ao chão.

"Por mais competente que seja o homem, não me cabe na cabeça que o ex-diretor da Polícia Judiciária não soubesse o quanto era desaconselhável pedir ajuda a um fornecedor para pôr num brinquinho a sua chafarica de fim de semana."
"Por mais competente que seja o homem, não me cabe na cabeça que o ex-diretor da Polícia Judiciária não soubesse o quanto era desaconselhável pedir ajuda a um fornecedor para pôr num brinquinho a sua chafarica de fim de semana."Reinaldo Rodrigues

Talvez, neste dia de Estado da Nação, fosse interessante começarmos a discutir o perigo dos políticos que se definem como perfeitos, sem pecados, os que, sem medo, estão disponíveis para mandar uma pedrada no pecador. Esses, confesso, assustam-me mais. A esses quero longe.

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