A Figura do Dia. Honrados, alegretes e miseráveis

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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As estatísticas publicadas pela Segurança Social são uma boa notícia para os que têm rasgado as vestes pela salvação da Pátria. Os números provam que há menos pessoas a contribuir para o futuro do país – o que terá naturais consequências na sustentabilidade das pensões, nas receitas que o Governo tem aproveitado (e bem) para reduzir a dívida, no aumento do PIB e na possibilidade de continuarmos a ter excedentes orçamentais.

"Se acredita que a culpa é do que vem de fora, gente que envenena o sangue da nossa quase milenar identidade, temos a obrigação de limpar o país, de o tornar outra vez habitável. Sem dinheiro, sem pensões, sem apoios, com mais dívida e o regresso em força do défice. pobrezinhos, miseráveis, mas honrados e alegretes."

Menos 1,1% de pessoas contribuíram em comparação com o mesmo período do ano passado. Encantadores de cobras em Marraquexe ou Istambul jurarão que terá a ver com o mercado de trabalho, mas Monsieur Jacques de La Palisse, genial mordomo dos lugares-comuns, é menino para nos deixar a pergunta a zombar nos ouvidos: “Isso não terá a ver com as políticas rigorosas de controlo dos estrangeiros?"

"Menos 1,1% de pessoas contribuíram [para a Segurança Social] em comparação com o mesmo período do ano passado. (...) Monsieur Jacques de La Palisse, genial mordomo dos lugares-comuns, é menino para nos deixar a pergunta a zumbir nos ouvidos: 'Isso não terá a ver com as políticas rigorosas de controlo dos estrangeiros?'"
"Menos 1,1% de pessoas contribuíram [para a Segurança Social] em comparação com o mesmo período do ano passado. (...) Monsieur Jacques de La Palisse, genial mordomo dos lugares-comuns, é menino para nos deixar a pergunta a zumbir nos ouvidos: 'Isso não terá a ver com as políticas rigorosas de controlo dos estrangeiros?'" FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

Podemos finalmente dormir de janela aberta, deixar as chaves na porta ou o carro aberto e ir ao pão sem receio de sermos assaltados por pretos, amarelos, vermelhos ou cor-de-rosa. Os dados continuam a dizer-nos que Portugal é dos países mais seguros do mundo, mas, politicamente, os factos não importam, a única coisa que conta é a perceção – se a maioria dos portugueses se sente insegura, se acredita que a culpa é do que vem de fora, gente que envenena o sangue da nossa quase milenar identidade, temos a obrigação de limpar o país, de o tornar outra vez habitável.

Sem dinheiro, sem pensões, sem apoios, com mais dívida e o regresso em força do défice. pobrezinhos, miseráveis, mas honrados e alegretes.

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