Tem 90 anos e acaba de celebrar o dia em que foi promovido a locutor de 1.ª Classe na Emissora Nacional. Fernando Correia não liga a efemérides, na sua cabeça só existe o amanhã, o próximo almoço com amigos, o jogo seguinte do seu Sporting ou o objetivo que ainda não atingiu.Há poucas pessoas tão apaixonadas pelo ofício de viver, pela beleza de acordar todas as manhãs, pelo medo de adormecer todas as noites. Faz precisamente 60 anos que foi promovido à primeira equipa da principal rádio em Portugal. Era um jovem, mas falava como um cavalheiro, a sua voz encantava princesas, que procuravam loucamente a felicidade, o talento de comunicador oferecia-lhe os melhores lugares nas mesas da bola, do Parque Mayer, mas também do São Carlos.. Fernando Correia não era apenas o relatador de que se falava, era um jovem adulto que gostava de vestir bem, que falava como poucos, que adorava a tasca e se sentia em casa no palácio, que se licenciara num tempo em que quase ninguém acaba o liceu.Aos 20 parecia um cavalheiro, mas aos 90 parece um miúdo. Carrega a partida de amigos, de sonhos não-concretizados, de um jornalismo que se alterou, de amores que já não voltam, é verdade. Só que traz a vida colada ao corpo, a vontade de escrever mais livros, de fazer mais programas, de não morrer nunca. De não desistir nunca. Um dia, numa conversa longa, disse-me o que não esqueci: “Querido Luís, o importante é sempre a decência, é a única coisa que importa se quisermos passar por aqui com orgulho, sermos decentes.”