A figura do dia. A selvajaria

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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A ministra da Cultura tem tido um mérito: passar pelos pingos de chuva que, na cultura, são sempre potenciais trovoadas. Balseiro Lopes pode não ser culta, mas tem, nesse sentido, feito melhor do que tantos outros antes dela que, lendo Joyce e Proust, morreram politicamente asfixiados pelos seus preconceitos e arrogância. Convém, no entanto, que alguma coisa aconteça na política cultural. Vendo à distância é entediante. Mais parece o Ministério das Pescas ou da Coesão Territorial. Não haverá gente desempoeirada e com alguma ideia na cabeça?

A ministra da Cultura tutela outras áreas. Acredito que se tivesse tido tempo para refletir sobre os cortes nas pensões de Mérito Cultural não teria avançado para a selvajaria de diminuir o número de beneficiários de 85 para 65 – gente em média com mais de 80 anos e com um subsídio que se situa entre os 180 e os 600 euros. Será que esta poupança merceeira, vale a morte da dignidade e do respeito pela memória?

Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.
Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.Foto: António Pedro Santos/Lusa

O subsídio de Mérito Cultural foi instituído no governo de Balsemão. O ministro chamava-se Lucas Pires. E conto uma história. O meu pai beneficiou deste apoio de mérito. Quando adoeceu, e deixou de poder trabalhar, foi ajudado por um grande amigo, que lhe depositava dinheiro todos os meses para que pudesse sobreviver. Fê-lo até ser defendido por dois políticos. Sabendo da sua situação, e não desconhecendo que era comunista, Pedro Santana Lopes, ministro da Cultura, e Maria José Nogueira Pinto, provedora da Santa Casa da Misericórdia, resolveram a indignidade e o desamparo. Há coisas que não se esquecem.

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