Os recentes desenvolvimentos relativos ao “Movimento Armilar Lusitano” e ao “Coletivo pela Libertação da Palestina” convidam a uma reflexão que transcende a natureza específica de cada caso. Não se trata de estabelecer equivalências apressadas entre processos distintos, nem de ignorar as diferenças substanciais que os separam. Trata-se, antes, de interrogar a consistência dos critérios através dos quais o espaço público observa, interpreta e julga fenómenos politicamente sensíveis.É inegável que o processo relacionado com o “Movimento Armilar Lusitano” se encontra numa fase mais avançada e assenta, até ao momento, em elementos de natureza e gravidade particularmente significativas. Tal circunstância justifica uma atenção acrescida por parte da comunicação social e da opinião pública. Contudo, o princípio da proporcionalidade não deve ser confundido com o da selectividade. As buscas recentemente efectuadas pela Polícia Judiciária a elementos do “Coletivo pela Libertação da Palestina”, aliás, aqui já tratado neste jornal, suscitaram uma atenção mediática relativamente discreta, apesar de terem sido conduzidas pela Unidade Nacional Contra-Terrorismo e de incidirem sobre suspeitas cuja relevância jurídica não pode ser sumariamente desvalorizada. Naturalmente, a presunção de inocência impõe prudência. Mas essa mesma prudência deveria constituir um princípio universal, e não uma atitude variável em função da localização ideológica dos visados.Numa democracia pluralista, o escrutínio público não pode depender da maior ou menor proximidade afectiva, cultural ou política relativamente às causas defendidas pelos investigados. Sempre que os critérios de análise se tornam assimétricos, corre-se o risco de transformar a exigência ética numa mera expressão de preferência ideológica.A credibilidade das instituições democráticas (judiciais, mediáticas e políticas) assenta, em larga medida, na percepção de imparcialidade. E essa imparcialidade não se mede pela severidade com que observamos aqueles de quem discordamos, mas pela equidade com que avaliamos aqueles com quem partilhamos afinidades.Mais do que os casos concretos, é essa exigência de coerência que está verdadeiramente em causa. E sem coerência nos critérios, não há justiça. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico