Esta semana surgiu mais uma pergunta incómoda sobre a crise de Ormuz. Que legitimidade tem uma potência para tratar os pontos de estrangulamento do comércio mundial – e os Estados que deles dependem – como meros meios para os seus fins? Na segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos autoproclamou-se “Guardião do Estreito de Ormuz” e impôs uma tarifa de 20% sobre o trânsito comercial nesse corredor marítimo. Na terça-feira, recuou e anulou a medida. Fê-lo sob pressão dos seus aliados no Golfo.O episódio revelou falta de discernimento estratégico – uma qualidade essencial em qualquer liderança. Perspicácia não é hesitação, cobardia ou cálculo tático. É a habilidade de avaliar as consequências de uma decisão antes de a anunciar; de distinguir entre o que é juridicamente possível, politicamente aceitável e estrategicamente sustentável; e de agir de modo a preservar a credibilidade, em vez de a gastar em gestos incongruentes. Um dirigente com discernimento sabe que o poder não se mede apenas pela capacidade de impor uma medida, mas também pela aptidão para prever as resistências que ela desencadeará.A taxa efémera do autoproclamado “guardião” foi um exemplo de imprudência: imposta como um facto consumado, sem base jurídica reconhecida, sem consultar os parceiros diretamente afetados e sem uma avaliação séria da reação dos Estados do Golfo. A medida caiu não por generosidade, mas porque os países afetados tinham poder para revertê-la. A Organização Marítima Internacional confirmou não existir base jurídica para esta cobrança. O problema não foi apenas a decisão; foi a demonstração pública de que uma grande potência pode anunciar uma medida global e descobrir no dia seguinte que não tem condições para a sustentar. Acaba, assim, por enfraquecer a confiança na sua palavra.A decisão do presidente Trump não deve ser lida como um episódio isolado ou como uma excentricidade pessoal. Pertence a um padrão mais vasto: o das grandes potências que transformam a interdependência em instrumentos de pressão. É em África que esse padrão se vê com mais nitidez. Todas prometem proteção, investimento, segurança ou desenvolvimento. Todas invocam a soberania dos seus parceiros. Mas, em demasiados casos, o resultado é uma relação assimétrica: os países africanos entregam recursos, posições estratégicas ou margem de decisão; as grandes potências recolhem vantagens; e as promessas políticas ficam dependentes das conveniências.Em fevereiro de 2025, o presidente da República Democrática do Congo (RDC) ofereceu a Washington acesso aos minerais críticos do país em troca de garantias de segurança. Seguiram-se uns acordos de parceria entre ambos, assinados em dezembro desse ano: os Estados Unidos ganharam acesso preferencial às concessões minerais congolesas e assumiram a obrigação de proteger a soberania do Leste da RDC. Do lado americano, o pacto não passou do papel. Washington limitou-se a aprovar sanções contra o Ruanda, que acusa de patrocinar os rebeldes.No Zimbabué, o conglomerado chinês Huayou Cobalt inaugurou em 2026 a primeira fábrica de sulfato de lítio do continente. O Zimbabué proibiu a exportação de lítio em bruto para forçar o processamento local; foi a China, não o Zimbabué, quem construiu o processador – e assim capta o enorme valor deste projeto.No Mali, no Sudão e na República Centro-Africana, o Africa Korps russo protege regimes militares em troca de ouro. Estes pactos são apresentados como exercícios de soberania e de proteção desses Estados, mas o resultado é semelhante ao observado em Quinxassa e Harare. Os parceiros locais pagam com recursos naturais, dependência e perda de autonomia; as grandes potências extraem valor; e a proteção prometida raramente coincide com segurança duradoura para as populações.A Europa deve retirar destes exemplos uma advertência clara. Nenhuma grande potência é aliada plena, automática e incondicional da Europa. Cada uma atua consoante os seus interesses: Washington procura preservar a sua primazia geopolítica; Pequim quer controlar as cadeias de valor, os mercados e as tecnologias críticas; Moscovo pretende limitar a autonomia europeia e explorar as suas vulnerabilidades fundamentais. A Europa pode cooperar com todas as potências quando os interesses coincidirem. Mas, com a necessária visão política.Assim, é fundamental abandonar a ingenuidade estratégica. O discernimento estratégico exige que a Europa mantenha canais abertos, mas reduza as dependências críticas; coopere quando for vantajoso, mas prepare alternativas; negocie com seriedade, mas sem submissão.Washington pode continuar a ser um parceiro indispensável em matéria de segurança, mas já não deve ser tratado como o garante automático da ordem europeia. A China pode ser parceira comercial e de investimento mútuo, mas deve igualmente ser encarada como um concorrente político sistémico na indústria, na tecnologia e no controlo das matérias-primas. A Rússia pode um dia voltar a ser uma interlocutora, mas enquanto usar a coerção, a ameaça e a agressão militar como método político, terá de ser vista com desconfiança.A autonomia europeia não pode ser uma fórmula retórica. As únicas alianças com que a Europa pode contar de forma estável são, antes de mais, as que conseguir construir no seu seio – numa base de unidade real, não apenas declarativa – e, depois, com os blocos e as economias de peso comparável.Não se trata de trocar a dependência de Washington pela de Pequim ou de Moscovo. Nem de alimentar inimizades desnecessárias com as grandes potências. Trata-se de reconhecer que, numa ordem dispersa entre polos rivais, sem uma autoridade única capaz de fazer cumprir as regras internacionais, a Europa tem de encarar as grandes potências como aquilo que estruturalmente já são: entidades concorrentes, cujos interesses podem coincidir com os europeus em certos momentos e divergir profundamente noutros.Para a Europa, isto significa que não se pode confundir proximidade diplomática com paz; mercados com dependência; e proteção com tutela. Se a Europa não aprender estas distinções, arrisca-se a ficar na mesma liga daqueles Estados ilusoriamente soberanos, onde as decisões essenciais sobre a sua segurança, os seus sistemas digitais, a energia, a indústria e a sua prosperidade correm o risco de ser tomadas fora das suas capitais.