A Europa e a ilusão dos aliados permanentes

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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Esta semana surgiu mais uma pergunta incómoda sobre a crise de Ormuz. Que legitimidade tem uma potência para tratar os pontos de estrangulamento do comércio mundial – e os Estados que deles dependem – como meros meios para os seus fins? Na segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos autoproclamou-se “Guardião do Estreito de Ormuz” e impôs uma tarifa de 20% sobre o trânsito comercial nesse corredor marítimo. Na terça-feira, recuou e anulou a medida. Fê-lo sob pressão dos seus aliados no Golfo.

O episódio revelou falta de discernimento estratégico – uma qualidade essencial em qualquer liderança. Perspicácia não é hesitação, cobardia ou cálculo tático. É a habilidade de avaliar as consequências de uma decisão antes de a anunciar; de distinguir entre o que é juridicamente possível, politicamente aceitável e estrategicamente sustentável; e de agir de modo a preservar a credibilidade, em vez de a gastar em gestos incongruentes. Um dirigente com discernimento sabe que o poder não se mede apenas pela capacidade de impor uma medida, mas também pela aptidão para prever as resistências que ela desencadeará.

A taxa efémera do autoproclamado “guardião” foi um exemplo de imprudência: imposta como um facto consumado, sem base jurídica reconhecida, sem consultar os parceiros diretamente afetados e sem uma avaliação séria da reação dos Estados do Golfo. A medida caiu não por generosidade, mas porque os países afetados tinham poder para revertê-la. A Organização Marítima Internacional confirmou não existir base jurídica para esta cobrança. O problema não foi apenas a decisão; foi a demonstração pública de que uma grande potência pode anunciar uma medida global e descobrir no dia seguinte que não tem condições para a sustentar. Acaba, assim, por enfraquecer a confiança na sua palavra.

A decisão do presidente Trump não deve ser lida como um episódio isolado ou como uma excentricidade pessoal. Pertence a um padrão mais vasto: o das grandes potências que transformam a interdependência em instrumentos de pressão. É em África que esse padrão se vê com mais nitidez. Todas prometem proteção, investimento, segurança ou desenvolvimento. Todas invocam a soberania dos seus parceiros. Mas, em demasiados casos, o resultado é uma relação assimétrica: os países africanos entregam recursos, posições estratégicas ou margem de decisão; as grandes potências recolhem vantagens; e as promessas políticas ficam dependentes das conveniências.

Em fevereiro de 2025, o presidente da República Democrática do Congo (RDC) ofereceu a Washington acesso aos minerais críticos do país em troca de garantias de segurança. Seguiram-se uns acordos de parceria entre ambos, assinados em dezembro desse ano: os Estados Unidos ganharam acesso preferencial às concessões minerais congolesas e assumiram a obrigação de proteger a soberania do Leste da RDC. Do lado americano, o pacto não passou do papel. Washington limitou-se a aprovar sanções contra o Ruanda, que acusa de patrocinar os rebeldes.

No Zimbabué, o conglomerado chinês Huayou Cobalt inaugurou em 2026 a primeira fábrica de sulfato de lítio do continente. O Zimbabué proibiu a exportação de lítio em bruto para forçar o processamento local; foi a China, não o Zimbabué, quem construiu o processador – e assim capta o enorme valor deste projeto.

No Mali, no Sudão e na República Centro-Africana, o Africa Korps russo protege regimes militares em troca de ouro. Estes pactos são apresentados como exercícios de soberania e de proteção desses Estados, mas o resultado é semelhante ao observado em Quinxassa e Harare. Os parceiros locais pagam com recursos naturais, dependência e perda de autonomia; as grandes potências extraem valor; e a proteção prometida raramente coincide com segurança duradoura para as populações.

A Europa deve retirar destes exemplos uma advertência clara. Nenhuma grande potência é aliada plena, automática e incondicional da Europa. Cada uma atua consoante os seus interesses: Washington procura preservar a sua primazia geopolítica; Pequim quer controlar as cadeias de valor, os mercados e as tecnologias críticas; Moscovo pretende limitar a autonomia europeia e explorar as suas vulnerabilidades fundamentais. A Europa pode cooperar com todas as potências quando os interesses coincidirem. Mas, com a necessária visão política.

Assim, é fundamental abandonar a ingenuidade estratégica. O discernimento estratégico exige que a Europa mantenha canais abertos, mas reduza as dependências críticas; coopere quando for vantajoso, mas prepare alternativas; negocie com seriedade, mas sem submissão.

Washington pode continuar a ser um parceiro indispensável em matéria de segurança, mas já não deve ser tratado como o garante automático da ordem europeia. A China pode ser parceira comercial e de investimento mútuo, mas deve igualmente ser encarada como um concorrente político sistémico na indústria, na tecnologia e no controlo das matérias-primas. A Rússia pode um dia voltar a ser uma interlocutora, mas enquanto usar a coerção, a ameaça e a agressão militar como método político, terá de ser vista com desconfiança.

A autonomia europeia não pode ser uma fórmula retórica. As únicas alianças com que a Europa pode contar de forma estável são, antes de mais, as que conseguir construir no seu seio – numa base de unidade real, não apenas declarativa – e, depois, com os blocos e as economias de peso comparável.

Não se trata de trocar a dependência de Washington pela de Pequim ou de Moscovo. Nem de alimentar inimizades desnecessárias com as grandes potências. Trata-se de reconhecer que, numa ordem dispersa entre polos rivais, sem uma autoridade única capaz de fazer cumprir as regras internacionais, a Europa tem de encarar as grandes potências como aquilo que estruturalmente já são: entidades concorrentes, cujos interesses podem coincidir com os europeus em certos momentos e divergir profundamente noutros.

Para a Europa, isto significa que não se pode confundir proximidade diplomática com paz; mercados com dependência; e proteção com tutela. Se a Europa não aprender estas distinções, arrisca-se a ficar na mesma liga daqueles Estados ilusoriamente soberanos, onde as decisões essenciais sobre a sua segurança, os seus sistemas digitais, a energia, a indústria e a sua prosperidade correm o risco de ser tomadas fora das suas capitais.

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