A educação como exemplo

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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Maria Emília Brederode Santos é uma referência da pedagogia contemporânea portuguesa. O seu exemplo constitui uma marca indelével no caminho que percorremos em cinquenta anos de democracia. O progresso alcançado deve-se à compreensão exata de que a melhor aprendizagem é a que decorre da ideia de que o desenvolvimento humano se faz em diálogo entre a exigência e a compreensão da sociedade complexa e diversa, que não se constrói com gestos mágicos e ilusões, mas com trabalho e criatividade. Alcançámos resultados invejáveis na escolarização, na diminuição drástica do abandono e do insucesso escolar, mas com 12 anos de escolaridade há ainda um caminho longo a percorrer, de rigor, qualidade e trabalho. Mais do que regozijo, importa deixar claro o sentido de responsabilidade.

Nas últimas conversas que tivemos, há muito pouco, senti em Maria Emília o mesmo entusiasmo e a mesma determinação de sempre, combatendo a indiferença e o fatalismo. Em falando de educação, nunca podemos considerar que a obra está realizada. Referimo-nos a capelas imperfeitas e à obrigação de ir mais além. Nas diferentes responsabilidades que assumiu, sempre partiu do pressuposto de que nada se consegue sem partilha, sem espírito de equipa, sem uma grande capacidade de ouvir os outros e de pôr em comum ideias e projetos. Com um espírito sempre renovado, recordava com entusiasmo a sua experiência da Rua Sésamo. Várias gerações foram formadas por esse espírito generoso e desassossegado, capaz de compreender a força de imaginação e a capacidade de entender a incerteza, num mundo imprevisível e desconcertante.

Como ensinou sempre, é indispensável que os educadores e professores compreendam em profundidade em que consistem os atos de escrever e ler, conheçam como se desenvolve a compreensão na criança ou no jovem, o sistema fonético da língua portuguesa, as características da escrita alfabética, mas também urge aprender a amar a leitura, a ouvir e a decorar os poemas e os textos, além da curiosidade para descobrir coisas novas, designadamente no mundo misterioso da ciência ou das artes. E se falo dos educadores e professores refiro a sua formação, a avaliação e o reconhecimento da dignidade da profissão. A aprendizagem da cidadania democrática deve fazer-se, ligando exemplo e responsabilidade nos ínfimos detalhes da vida. A extraordinária sementeira que é a arte de educar constituía para Maria Emília uma verdadeira paixão, que se concretizava nas ideias gregas de scolè e de paideia, como lugares da disponibilidade plena para descobrir e perguntar e pontos de encontro para aprender saber, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser.

A lembrança de Maria Emília Brederode Santos traz à memória seu Pai, Nuno Rodrigues dos Santos, um democrata de antiga tempera, que bem conheci e que foi dos pais fundadores do nosso regime constitucional. Mas igualmente merecem sentida recordação, dois inesquecíveis amigos, José Medeiros Ferreira, um artífice sábio da democracia e Nuno Brederode Santos, que aliava a capacidade de exercer a cidadania à qualidade do cronista inesgotável, pelo seu humor e voracidade crítica. Maria Emília é nessa família singular a evidência viva de que a memória se constrói com a determinação de quem está sempre disponível para afirmar a dignidade humana a partir da generosa disponibilidade de aprender.

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