Um dos paradoxos mais intrigantes dos tempos atuais diz respeito ao papel da economia nas escolhas eleitorais e na política em geral. A economia já não explica o comportamento político atual, mas explica a origem das condições que tornaram esse comportamento possível. Este é, provavelmente, o paradoxo central do nosso tempo.
Por um lado, a economia continua a ser um dos fatores mais importantes no comportamento eleitoral. Os eleitores tendem a recompensar governos em períodos de crescimento económico e a castigá-los quando indicadores simples, que qualquer pessoa pode avaliar, apontam em sentido contrário, como a taxa de desemprego, a inflação, os custos da habitação ou os preços dos combustíveis e dos bens essenciais. A frase “It’s the economy, stupid!” (É a economia, estúpido!), que marcou a campanha presidencial de 1992 nos Estados Unidos, sintetiza esta lógica que dominou a política durante décadas.
Por outro, a crise financeira de 2008 e os desenvolvimentos posteriores alteraram profundamente este quadro. Ganharam força as identidades culturais e territoriais, os valores morais e religiosos, as perceções de justiça, as atitudes face à globalização, as migrações e as mudanças sociais. Há cada vez mais fenómenos políticos que contrariam o que seria racionalmente desejável do ponto de vista económico e, no entanto, crescem. Isto não resulta de um erro de cálculo dos eleitores, mas de uma transformação profunda na forma como as pessoas percebem o mundo, a identidade e o futuro.
A economia continua a importar, mas o que domina hoje é a ansiedade identitária, o medo de perda, a perceção de descontrolo e uma fadiga, ou desilusão, com a globalização e com as mudanças que esta potenciou nas economias e nas sociedades ocidentais. Para muitos cidadãos na Europa e na América do Norte, a globalização gerou riqueza agregada, mas destruiu redes de segurança que existiam há décadas. E beneficiou os grandes centros urbanos e as atividades do setor terciário, com uma forte financeirização da economia, mas fragilizou as periferias industriais que, na segunda metade do século XX, tinham sido motores da prosperidade ocidental.
Depois, o colapso de 2008 e as suas sequelas, incluindo a crise das dívidas soberanas do euro e os resgates de Portugal, Itália e Grécia, rebentaram com a ideia de que os mercados financeiros eram racionais e previsíveis. Mostraram que as elites financeiras podiam falhar sem grandes consequências para si próprias, mas com custos sociais profundos. A confiança no sistema foi abalada.
Seguiu-se a imigração em massa, incentivada por vários governos para assegurar a sustentabilidade de mercados de trabalho e sistemas de pensões ameaçados pelo declínio demográfico. Embora seja essencial para manter mercados de trabalho robustos, a imigração tem vindo a alterar hábitos sociais e culturais, a transformar paisagens urbanas e a desafiar identidades nacionais. O que é economicamente necessário tornou-se politicamente explosivo.
A isto juntou-se a disrupção causada pela digitalização e pelas redes sociais, que aceleraram a polarização. Ficaram assim reunidas as condições para o surgimento dos populismos, de esquerda e de direita, que tomaram conta do debate político, aproveitando a incapacidade de muitos partidos tradicionais para responder aos anseios das populações. Em particular, daqueles que trocaram causas universais por agendas identitárias e minoritárias que passam ao lado das preocupações da maioria.
"Para terem sucesso, os atores políticos têm de oferecer algo mais do que ‘dinheiro no bolso’. As pessoas procuram uma narrativa que lhes devolva a sensação de pertença e de controlo num perigoso mundo novo em rápida mutação.”
E, perante isto, o que fazem os populismos? Apresentam respostas simples para problemas complexos, com forte carga emocional e sem considerar os impactos nefastos que essas políticas podem ter no bem-estar e no progresso de um país. Daí que vivamos hoje num mundo onde os governos e outros atores políticos avançam com respostas não-económicas a problemas que nasceram na economia. O resultado é um mundo dividido em blocos que competem entre si, com um protecionismo crescente e cada vez mais hostilidade à imigração, mesmo quando tal contraria os interesses económicos de longo prazo.
A conclusão é simples e inquietante. Os choques económicos criaram ansiedade, a ansiedade alimentou identidades, as identidades abriram espaço aos populismos e os populismos estão agora a redesenhar o mundo contra a lógica económica que o sustentou durante décadas. O paradoxo central do nosso tempo é este: a política responde emocionalmente a problemas que nasceram na economia, e essa resposta emocional está a transformar a economia que a gerou. Para terem sucesso, os atores políticos têm de oferecer algo mais do que “dinheiro no bolso”. As pessoas procuram uma narrativa que dê sentido às suas escolhas e que lhes devolva a sensação de pertença e de controlo num perigoso mundo novo em rápida mutação.