A distância entre nós

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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A Distância, de Tiago Rodrigues, em cena na Culturgest, obriga-nos a pensar no que fazemos, a quem o fazemos e naquilo que nos empurra para longe, mesmo quando existe amor.

É sobre o medo de um pai e sobre a decisão da filha de não viver dentro desse medo. É uma distopia: uma das personagens está em Marte e a Terra fica a mais de 200 mil quilómetros, mas é sobre os dias de hoje. Sobre a forma como nos isolamos, sobre as decisões que tomamos sem querer saber se existe um legado que temos de honrar. Sobre a possibilidade de a esperança ainda ter força para vingar.

No dia em que assisti, os atores – Adama Diop e Alison Deschamps – foram chamados ao palco três vezes. A canção de Caetano Veloso, Sonhos, ficou dentro de mim e as palavras de Tiago Rodrigues começaram a confundir-se com as do cantor brasileiro. “Eu só vim para Marte. Não viajei para outra galáxia” (Tiago). “A esperança é um dom que tenho em mim” (Caetano). “Quero que saibas que te amo. Mesmo quando não estou de acordo contigo” (Tiago). “Você me ensinou milhões de coisas” (Caetano).

Precisamos muito de esperança. Mas precisamos também de conseguir pensar para lá da resignação.

Talvez esta seja outra forma de distância.

Vivemos cada vez mais longe de uma certa retidão, da boa vontade, da ideia elementar de que há coisas que não se fazem aos outros. E chegámos a um ponto estranho, em que falar de valores parece obrigar-nos imediatamente a escolher um campo ideológico. Como se os valores pertencessem aos conservadores.

Não pertencem. A dignidade, a decência, a liberdade, a responsabilidade pelo outro, a capacidade de discordar sem desumanizar não são património de uma direita ou de uma esquerda. São princípios humanistas sem os quais o tecido democrático deixa simplesmente de existir.

Uma democracia não desaparece apenas quando alguém decide destruí-la. Também se desfaz quando aqueles que acreditam nela se habituam ao que antes consideravam inadmissível.

É por isso que precisamos do teatro. Desta peça e de outras. De livros, de filmes, de música, de tudo aquilo que nos interrompa o automatismo e nos obrigue a olhar outra vez. Não para nos dizer o que devemos pensar, mas para impedir que deixemos de pensar.

Em A Distância, um pai e uma filha tentam amar-se separados por mais de 200 mil quilómetros. Nós estamos muito mais perto uns dos outros.

Às vezes, tenho a impressão de que estamos cada vez mais longe. E talvez a pergunta seja sempre a mesma: é esta a vida que queremos?

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