A diplomacia pode agora resolver a guerra no Irão

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A tradicional sensatez e pragmatismo chineses salvaram, por agora, a situação de guerra vivida no Irão. Ao perceber que o ultimato de Trump iria fazer escalar, perigosamente, a tensão bélica que se vive no Médio Oriente a China pressionou Teerão para que aceitasse uma trégua que vai ter a duração de duas semanas. Uma proposta que tem a assinatura do Paquistão e do Egipto.

Naturalmente que esta posição chinesa coincide com os naturais interesses de Pequim, que não quer que o mundo vire um caos económico por via do encerramento do Estreito de Ormuz. É a globalização que estava em causa e à qual a China pode agradecer o grau de desenvolvimento económico que vive actualmente. A posição chinesa expressa a inacreditável realidade de que o respeito pela ordem mundial e pelo equilíbrio entre as nações começa a estar do lado da China e não dos Estados Unidos que, com Trump, tem feito tábua rasa das convenções internacionais.

O que vai estar em causa nas próximas duas semanas é uma quadratura do círculo negocial bastante difícil de conseguir dadas as exigências colocadas por Teerão nos dez pontos que constituem a sua base negocial. Para atingir um ponto de equilíbrio terá de ser a diplomacia e uma significativa dose de bom senso dos Estados Unidos e do Irão para conseguirem um entendimento que salve o mundo do caminho de caos que estava a seguir. Os dez pontos colocados na proposta iraniana implicam exigências que Israel, dificilmente, irá aceitar.

Exigir a Netanyahu que deixe de bombardear Gaza e o Líbano, sendo uma posição totalmente justa, é pôr em causa toda a estratégia de Israel para se tornar uma potência com significativa presença territorial no Médio Oriente. Tal como será complicada a negociação à volta da reabertura do Estreito de Ormuz dado que Teerão quer, agora, ver a passagem de navios portajada em conjugação com Omã. Mas, nesta componente, terá de ser Teerão a ceder. O Estreito de Ormuz tem de reabrir à luz das convenções internacionais do Direito Marítimo.

A actual situação vivida no Médio Oriente e as atitudes dos Estados Unidos não deixam de ser uma derrota para Donald Trump com as suas ameaças e ultimatos. O presidente norte-americano foi salvo ao bater do gongo pela intervenção de Pequim.

Manifestamente os Estados Unidos, além de não conseguirem os objectivos que o levaram a uma guerra com o Irão, foram confrontados com uma resposta assimétrica do lado de Teerão que, inteligentemente, ao encerrar o Estreito de Ormuz, usou uma arma que Trump não considerou e que pode provocar graves prejuizos na economia mundial e comprometer os princípios de colaboração entre países de acordo com a lógica da globalização vivida até agora.

Entretanto, o desgaste provocado pela guerra começou a atingir a popularidade do presidente dos Estados Unidos. Apenas 36 % dos norte-americanos apoiam as suas decisões, enquanto 60% são críticos das mesmas.

Sucedem-se as demissões nos altos-comandos das Forças Armadas. O chefe de Estado-Maior do Exército foi demitido.

Nas hostes do MAGA começam a verificar-se fracturas importantes. Marjorie Taylor Greene, ex-congressista republicana que era uma das mais indefectíveis apoiantes de Trump é hoje uma oponente feroz das políticas do Presidente norte-americano.

Se restar alguma sensatez ao MAGA e a Trump o que devem fazer agora é aproveitar a oportunidade de paz que se vislumbra no horizonte com estas duas semanas de tréguas, abandonar a ideia de uma guerra contra o Irão e reactivar os circuitos credíveis diplomáticos de Washington e tentar, nestas duas semanas, um acordo que dê paz ao mundo e não comprometa a situação financeira mundial que estava a começar a sofrer os efeitos da guerra cujos objectivos nunca foram claros por parte da administração norte-americana.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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