No sábado passado morreu Jürgen Habermas, um dos últimos grandes filósofos europeus. Habermas mostrou que não bastam constituições, eleições ou tribunais para garantir legitimidade democrática. Para que exista democracia, dizia ele, é necessário diálogo sobre a forma como a sociedade se organiza, entre pessoas que discordam das propostas que estão sobre a mesa.Segundo Habermas, é no espaço público, feito de jornais, parlamentos, redes de associações, universidades e, hoje, também plataformas digitais, que as sociedades formam opiniões e vontades coletivas. A promessa democrática é exigente e as decisões só são verdadeiramente legítimas quando podem ser aceites, com entusiasmos ou resignação, por todos os afetados, após processos de debate em que conta a força do melhor argumento, não a força do dinheiro, do cargo ou da máquina de comunicação. Esse ideal de racionalidade comunicativa não é uma descrição ingénua de uma realidade desejada, mas um critério para criticar quem se recusa a participar num debate público racional. Hoje, porém, a distância entre o ideal e a prática parece transformar-se num abismo intransponível. O populismo contemporâneo organiza a política não como confronto de argumentos, mas como choque de identidades. Em vez de adversários com quem se discute, aponta-se o dedo a inimigos a derrotar. Em vez de deliberação, temos mobilização emocional permanente. As redes sociais aceleram este processo. A lógica dos algoritmos recompensa a indignação, a simplificação e o escândalo. A esfera pública, que Habermas imaginou como um espaço comum de debate, fragmenta-se em bolhas onde circulam narrativas incompatíveis, dados alternativos e suspeitas mútuas. Falamos mais do que nunca, mas ouvimo-nos cada vez menos. O próprio Habermas descreveu este risco lembrando que quando a lógica do poder, do lucro ou da manipulação invade a comunicação quotidiana, o diálogo orientado para o entendimento é substituído por estratégias de influência. As instituições permanecem, mas perdem o chão comum que as sustenta. Cresce a desconfiança, banaliza-se a acusação de “fake news”, a ideia de verdade factual torna-se suspeita e a ciência inútil.Recordar Habermas, neste contexto, não é apenas um gesto de justiça para com um dos grandes pensadores do nosso tempo. É também relembrar que a defesa da democracia começa antes do voto e vai além do xadrez entre governos e oposição. Começa na forma como falamos uns com os outros, na disposição para justificar posições, reconhecer factos incómodos e rever opiniões à luz de melhores argumentos. Essa confiança no poder emancipador da palavra pode parecer frágil na era do cinismo e do espetáculo político. Mas talvez seja a última base comum que ainda podemos partilhar numa sociedade plural. A pergunta que Habermas nos deixa é simples: queremos viver em regimes que decidem pela força de maiorias momentâneas, alimentadas pela manipulação e pelo ruído? Ou queremos viver em democracias que ainda tentam decidir o nosso futuro comum pela força do melhor argumento? Como dizia um ex-Embaixador americano na ONU, “temos direito às nossas opiniões, mas não temos direito aos nossos factos”.