A China, Império do Meio

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Com o fim do Império Britânico, que podemos datar da descolonização de África no início da década de 1960 mas que começou com a independência da Índia em 1947, acabaram-se as dúvidas de que o mundo tinha apenas duas potências capazes de influência global. Depois, os Estados Unidos revelaram-se como a mais forte delas, e a União Soviética, vítima do fracasso em reinventar-se, desagregou-se e voltou a ser no essencial a Rússia. Nesses tempos de Guerra Fria, um outro colosso, de passado glorioso mas enfraquecido por revoluções, invasões e guerras civis, desempenhava um papel secundário. Falo da China, que entrou primeiro na órbita soviética, e acabou por se tornar uma aliada dos Estados Unidos, mesmo mantendo-se um país comunista.

Ora, depois da visita de Donald Trump na semana passada e agora a de Vladimir Putin a Pequim, ficou evidente que a China continua a ser cortejada por americanos e russos, mas não mais como um parceiro menor.

Para os Estados Unidos, apesar da vantagem económica e militar que ainda mantêm, a escolha é entre cooperação ou competição, mas entre iguais. Para a Rússia, o essencial é preservar a aliança com a China nascida no pós-Guerra Fria para contrariar a supremacia dos Estados Unidos, de repente única superpotência, mesmo que o Kremlin tenha mantido o arsenal nuclear soviético como legado.

A ascensão chinesa impressiona. Com a proclamação da República Popular em 1949, Mao Tsé-tung trouxe a estabilidade, mas foi com as reformas lançadas por Deng Xiaoping, em finais da década de 1970, que chegou finalmente a prosperidade. Desde 2010 segunda maior economia mundial, a China é também já a segunda maior potência militar convencional, e com um programa de reforço do armamento nuclear em curso, para se aproximar da capacidade de dissuasão americana.

Interligação com os Estados Unidos, sobretudo económica, leva a suspeitar que há em Pequim uma preferência pela cooperação, e Xi Jinping terá passado essa mensagem a Trump. Putin, que tem consciência de que precisa da China no seu campo (mesmo que até fale com Trump, ao contrário do que acontecia com Joe Biden), tem como objetivo garantir que Xi continua a valorizar a relação com a Rússia.

O ser anfitrião reforça a posição de aparente força de Xi, mas é mais do que isso. Ao receber Trump e Putin, cada um com uma guerra complicada por resolver, o líder chinês garante centralidade na cena global, e tenta projetar ideia de uma China pacífica, sem os defeitos da atual e da ex-superpotência. É como se fosse de novo o Império do Meio, fazendo justiça ao tradicional nome do país.

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