A cartilha ministerial

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

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Perante o descalabro da classificação digital dos exames do Ensino Secundário e após vários arranques disparatados na tentativa de um rápido passa-culpas pelo que se vai observando, a equipa do Ministério da Educação esforçou-se por criar uma narrativa de desresponsabilização.

Em primeiro lugar, o problema seria das “escolas”, que agrafaram as folhas dos exames quando tinham sido instruídas para o não fazerem. Porque os agrafos ficaram em cima dos QR Codes dos exames e os digitalizadores ficaram baralhados. Perante a demonstração da incorreção destas alegações, focou-se a culpa no software. Qual software?

E a distribuição caótica dos itens para CLASSIFICAR, baralhando disciplinas e classificadores, apagando itens já CLASSIFICADOS e fazendo surgir outros, apresentando respostas incompletas, por desaparecimento das folhas de continuação? As insuficiências internas da plataforma para CLASSIFICAÇÃO também se devem aos agrafos, aos professores, ao Espírito Santo?

Depois, afirmou-se que a culpa seria dos professores, que andam a alarmar a opinião pública com falsidades (mas nunca se enumera uma que seja). E maior é a culpa dos que se querem opor ao Progresso e ao admirável mundo novo da digitalização educativa.

Após dias de desorientação, surgiu uma narrativa mais consistente, baseada em informação truncada e naquele optimismo típico de alguma inconsciência… tudo vai estar bem, com um pequeno acerto de datas, e o ministro é um excelente ministro que nada tem a ver com isto, nem com a nomeação das lideranças da nova estrutura orgânica do MECI ou com a falta de mecanismos prévios de controlo de qualidade de todo este processo. O que há é uma enorme conspiração - ainda não se entrou pelos domínios da “cabala” - de gente retrógrada e mal-intencionada que quer travar este avanço extraordinário na Educação Nacional.

E não nos esqueçamos do elemento nuclear, essencial, insofismável, de qualquer argumentação anti-docentes quando o “calor” aperta… “Ah, malandros, só querem é ter três meses de férias e não fazer nada”. Não há cartilheiro que se preze que, ao longo das últimas décadas, com governação mais rosada ou alaranjada, não tenha recorrido a este “argumento” que eu tanto gostava que fosse verdadeiro. É que eu sou “básico”, nem sequer classificador de exames sou, mas andei, como tant@s colegas, durante semanas a arrumar os processos dos alunos, a fazer relatórios de tudo e mais alguma coisa (avaliação dos alunos, avaliação do desempenho, para a CPCJ, etc), agora que já não estou nas equipas de formação de turmas e que nunca fui de secretariados ou equipas de horários, que isso é coisa de responsabilidade maior.

No fundo, como tantas vezes no passado, as coisas parecem só correr mal por causa de quem aplica mal as medidas excepcionais de governantes esclarecidos. A primeira preocupação é alijar as próprias responsabilidades e nomear bodes expiatórios.

Por fim: a ideia de mostrar o interior dos barracões, em Mem Martins, onde se faz a digitalização dos exames pode ter sido das ideias mais idiotas da equipa comunicacional deste MECI: aquilo não é “inovador”, não revela qualquer “modernização”, mas antes um ambiente terceiro-mundista de sweatshop. Apenas revela a má qualidade do verniz usado para encobrir as verdadeiras condições materiais de boa parte do nosso sistema educativo.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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