Perante o descalabro da classificação digital dos exames do Ensino Secundário e após vários arranques disparatados na tentativa de um rápido passa-culpas pelo que se vai observando, a equipa do Ministério da Educação esforçou-se por criar uma narrativa de desresponsabilização.Em primeiro lugar, o problema seria das “escolas”, que agrafaram as folhas dos exames quando tinham sido instruídas para o não fazerem. Porque os agrafos ficaram em cima dos QR Codes dos exames e os digitalizadores ficaram baralhados. Perante a demonstração da incorreção destas alegações, focou-se a culpa no software. Qual software?E a distribuição caótica dos itens para CLASSIFICAR, baralhando disciplinas e classificadores, apagando itens já CLASSIFICADOS e fazendo surgir outros, apresentando respostas incompletas, por desaparecimento das folhas de continuação? As insuficiências internas da plataforma para CLASSIFICAÇÃO também se devem aos agrafos, aos professores, ao Espírito Santo?Depois, afirmou-se que a culpa seria dos professores, que andam a alarmar a opinião pública com falsidades (mas nunca se enumera uma que seja). E maior é a culpa dos que se querem opor ao Progresso e ao admirável mundo novo da digitalização educativa.Após dias de desorientação, surgiu uma narrativa mais consistente, baseada em informação truncada e naquele optimismo típico de alguma inconsciência… tudo vai estar bem, com um pequeno acerto de datas, e o ministro é um excelente ministro que nada tem a ver com isto, nem com a nomeação das lideranças da nova estrutura orgânica do MECI ou com a falta de mecanismos prévios de controlo de qualidade de todo este processo. O que há é uma enorme conspiração - ainda não se entrou pelos domínios da “cabala” - de gente retrógrada e mal-intencionada que quer travar este avanço extraordinário na Educação Nacional.E não nos esqueçamos do elemento nuclear, essencial, insofismável, de qualquer argumentação anti-docentes quando o “calor” aperta… “Ah, malandros, só querem é ter três meses de férias e não fazer nada”. Não há cartilheiro que se preze que, ao longo das últimas décadas, com governação mais rosada ou alaranjada, não tenha recorrido a este “argumento” que eu tanto gostava que fosse verdadeiro. É que eu sou “básico”, nem sequer classificador de exames sou, mas andei, como tant@s colegas, durante semanas a arrumar os processos dos alunos, a fazer relatórios de tudo e mais alguma coisa (avaliação dos alunos, avaliação do desempenho, para a CPCJ, etc), agora que já não estou nas equipas de formação de turmas e que nunca fui de secretariados ou equipas de horários, que isso é coisa de responsabilidade maior.No fundo, como tantas vezes no passado, as coisas parecem só correr mal por causa de quem aplica mal as medidas excepcionais de governantes esclarecidos. A primeira preocupação é alijar as próprias responsabilidades e nomear bodes expiatórios.Por fim: a ideia de mostrar o interior dos barracões, em Mem Martins, onde se faz a digitalização dos exames pode ter sido das ideias mais idiotas da equipa comunicacional deste MECI: aquilo não é “inovador”, não revela qualquer “modernização”, mas antes um ambiente terceiro-mundista de sweatshop. Apenas revela a má qualidade do verniz usado para encobrir as verdadeiras condições materiais de boa parte do nosso sistema educativo. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico