O “humanismo” tem sido o adereço retórico favorito dos discursos governamentais sobre imigração. É uma palavra benevolente, usada para suavizar a crueza de políticas que, na prática, têm trilhado o caminho da restrição. Vamos expulsar, mas “com humanismo”. Vamos separar famílias, mas “com humanismo”, e por aí afora. Se algumas medidas duras foram necessárias (como o fim da Manifestação de Interesse), outras poderiam ter tido alternativas verdadeiramente “humanistas”, e não se seguiu esse caminho (vejam-se as restrições ao reagrupamento familiar).Curiosamente, as notícias que podem contribuir para o tão almejado “humanismo” vêm de dois ministérios que não tutelam diretamente a área da imigração.Primeiro, o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, que decidiu passar a publicitar, todos os meses quer os números referentes a descontos dos imigrantes para a Segurança Social, quer os números dos apoios que estes recebem. Talvez se se lembrar, todos os meses, que as Contribuições destes para a Segurança Social aumentaram 8,5 vezes em 11 anos, se ajude a desmontar a narrativa de que os imigrantes “vêm viver à nossa custa”. E nos faça perceber que estamos quase mais perto de “viver à custa deles” do que o contrário.Mas como escrevia aqui há uns tempos, o discurso anti-imigração não está (só) preocupado com o dinheiro. Ele alimenta-se do medo visceral do “outro”, do estrangeiro que ameaça a suposta homogeneidade do bairro. É aqui que a entrada de Luís Neves no Ministério da Administração Interna ganha uma relevância simbólica.Lembro-me muito bem do impacto que Luís Neves produziu quando partilhámos um painel na Conferência dos 160 anos do DN. O então diretor da PJ lembrou ter uma obrigação para com o país, que poderia passar por combater a desinformação no que toca ao mito de que a imigração faz disparar a criminalidade.Aí citou várias estatísticas, das quais resultou claro que o discurso securitário-populista não contaria com a sua conivência.É esta pessoa que vai agora ficar à frente do ministério que tutela as polícias que têm a seu cargo o controlo das fronteiras. E isto é tremendamente importante. Este governante pode, efetivamente, contribuir decisivamente para baixar o tom do segundo vetor do discurso “anti-imigração”: o receio da criminalidade e insegurançaApaziguados os receios com a economia e a criminalidade, fica aquele que é mais difícil de combater: o receio identitário, que precisaria de uma abordagem muito sensível, transversal e a vários níveis (central e local), que o poder político ainda não teve coragem de levar a sério. É que o humanismo não se proclama apenas. Constrói-se. Batalha-se. Ficará isto à espera de uma maturidade política na matéria que teima em não chegar?