Em Abril, quando Viktor Orbán perdeu as eleições na Hungria, apesar de Washington ter feito campanha por ele, a extrema-direita europeia descobriu que a proximidade a Trump podia ser um passivo. A guerra com o Irão já tinha afastado Marine Le Pen e Alice Weidel da Casa Branca. Partidos da soberania não podiam, sem pudor, aplaudir uma potência estrangeira em campanha nas eleições dos outros.
Bastou uma semana de Outubro para que esse pudor deixasse de pesar. A 10, depois de um acordo com o Kremlin para pôr gasóleo russo nos mercados, Trump disse que a Ucrânia precisava de um novo presidente. A 13, Weidel pedia “um acordo de gasóleo para os alemães”, elogiava o pragmatismo de Trump e dava por falhada a política alemã para a Ucrânia. No dia seguinte, em Bruxelas, Le Pen anunciava que, se for eleita, a França deixará de financiar Kiev ao fim de seis meses, “porque já não temos meios”. Trump não converteu ninguém. Deu cobertura a quem já tinha vontade.
Weidel é o caso mais revelador, porque o elogio a Trump é só a embalagem. Lidera a ala ocidental de um partido cujas federações do Leste sempre olharam para Moscovo, e cujo grupo parlamentar, que ela co-dirige, ainda em Abril pediu a reactivação do Nord Stream. O programa da AfD defende a não-ingerência nos assuntos internos de outros Estados, e ela aplaude Trump três dias depois de ele dizer aos ucranianos que mudem de presidente. Mas a explicação não está em Washington. Está na Saxónia-Anhalt, onde em Setembro o partido ficou a três deputados de governar sozinho. É no Leste que a AfD ganha e está mais perto do poder, e a ala ocidental move-se para onde o poder está.
Le Pen nem de cobertura precisou. Não elogiou Trump: já o dizia em Setembro, antes de Washington se virar contra Kiev. Weidel segue o poder, Le Pen segue a agulha, e as duas coisas juntas são oportunismo com direcção fixa. A bússola destes partidos não aponta para Washington. Aponta para Moscovo, e Washington só conta quando, por acaso, aponta na mesma direcção.
A Casa Branca oscila: em Setembro Trump assinou sanções contra a energia russa, em Outubro autorizou o gasóleo russo até Abril. Moscovo não oscila. O que em Washington é táctica, em Moscovo é estratégia.
Convém não meter tudo no mesmo saco. A extrema-direita europeia não é um bloco: há a família de inclinação antiga para Moscovo, do FPÖ austríaco às federações orientais da AfD e ao partido de Le Pen, que em 2014 se financiou num banco russo, e há a atlantista, como os Fratelli d’Italia de Giorgia Meloni. Nem a bússola é só de direita: Robert Fico, que vem da esquerda, recusa ajuda militar a Kiev, e o partido de Sahra Wagenknecht também quer o seu gasóleo.
Dir-se-á que tudo isto é carteira. Para Weidel, a carteira justificaria pedir gasóleo, não dar por falhado o apoio à Ucrânia. Para Le Pen, respondem as contas. Dos cerca de 26 mil milhões que o Instituto Kiel atribui à França desde 2022, só uns 8 mil milhões são ajuda bilateral; os outros 18 são a quota-parte francesa da ajuda europeia, boa parte em empréstimos, que Paris não pode cortar sozinha. O que um governo francês pode de facto cortar ronda os 2 mil milhões por ano. E se Le Pen mantiver, como promete, a formação e talvez o material, sobra a ajuda financeira directa: uns 200 milhões por ano. Nenhum orçamento se salva com isto. O anúncio não é política orçamental. É um sinal, e tem dois destinatários: Moscovo e o eleitor das pensões.
E o “já não temos meios” diz mais do que parece. De Paris a Atenas, estudantes protestam contra escolas degradadas e rendas impossíveis. As causas são reais e não há indício de que alguém os coordene. Mas a Europa rearma-se com orçamentos apertados, e Le Pen usa a lógica do “ou a Ucrânia ou nós” desde que, em Setembro, opôs a ajuda a Kiev à actualização das pensões. A Rússia não precisa de criar os protestos. Basta-lhe que o custo de defender a Ucrânia passe a ser sentido como custo social.
Para quê destruir a União Europeia, se os amigos de Moscovo podem tomar conta dela? Esta semana viu-se o método por inteiro: a cobertura vem de Washington, a voz sai em Berlim e em Bruxelas, e o terreno está na rua. A resposta não é calar as escolas nem as rendas. É fazer a conta em voz alta. Aos pensionistas, Le Pen promete uma poupança que não paga um dia de pensões. A Moscovo, promete o que nenhum exército russo conseguiu: uma França que desiste primeiro.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico