A autoridade que não se vê

Davide Amado

Presidente da Concelhia do PS de Lisboa

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Esta semana, nas comemorações dos 135 anos da Polícia Municipal, Carlos Moedas declarou-se “satisfeito”. O ministro da Administração Interna acabara de garantir que a PSP reforçará Lisboa, “em princípio”, até ao final do ano. Vale a pena recordar a epopeia.

A 12 de maio, Luís Montenegro prometeu 200 agentes da PSP e 100 polícias municipais para a capital. Em agosto, Moedas queixava-se de não ter recebido um único. O gabinete do ministro desmentiu-o publicamente, assegurando que o reforço “já está no terreno”. Um mês volvido, o mesmo ministro promete o mesmo reforço para o final do ano, e Moedas dá-se por contente. Entre a exigência e o conformismo não aconteceu nada. Nem agentes, nem explicação.

Não é um caso isolado. Carlos Moedas é mesmo assim. Na Assembleia Municipal de 15 de setembro, pediu ao Governo o cancelamento imediato do sistema Volta, que classificou como “um drama social sem precedentes”. A resposta chegou no dia seguinte, em duas linhas: a ministra do Ambiente recusou, invocou obrigações europeias e declarou o sistema um sucesso. Na mesma sessão, o presidente da Câmara qualificou a descentralização da educação de “erro brutal”, jurou que nunca aceitará a da Saúde e acusou os municípios de serem “tarefeiros dos governos”. Silêncio em São Bento. Acrescente-se o Licenciamento Zero, cuja revisão reclama há anos e que continua tal e qual. Muita voz grossa não o faz sentar-se na mesa dos adultos.

O problema que aqui se levanta não é de segurança, de resíduos, nem de escolas. É de autoridade. Ou da falta dela. Desde junho, Moedas é vice-presidente do PSD, promovido pelo próprio Montenegro ao lado de Pedro Duarte e Sebastião Bugalho, numa linha de sucessão desenhada à vista de todos. Um vice-presidente do partido que governa não consegue arrancar ao seu próprio Governo nem 200 polícias, nem a suspensão de uma medida que diz estar a devastar a cidade que administra. Ou o cargo não vale nada, ou quem o ocupa não tem peso político. Nenhuma das hipóteses o favorece.

Repare-se no calendário. As críticas de Moedas adensam-se quando as sondagens apertam. Esta semana, um estudo do Observador sobre mais de mil inquéritos concluiu que o desgaste de Montenegro só é superado pelo de Passos Coelho e pela dupla Durão-Santana; a tracking poll da CNN colocou a AD em 3.º lugar, atrás do PS e do Chega, com o primeiro-ministro nos 34% de aprovação. É nesse preciso momento que o autarca sobe o tom. Não para resolver Lisboa: para se descolar de um barco que mete água.

O terreno, porém, já tem dono. Há meses que Pedro Passos Coelho ocupa o espaço da crítica interna e voltou agora a exigir que Montenegro esteja “à altura da tradição do PSD”. Fá-lo sem cargos a proteger. Moedas faz o inverso: critica de dentro da direção, sem custo e sem resultado. A isso não se chama coragem política. Chama-se posicionamento. E os lisboetas continuam à espera dos polícias.

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