A arte da propaganda nos murais de Teerão

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Não teriam passado muito mais de 24 horas sobre a nomeação de Mojtada Khamenei como novo Guia Supremo do Irão, sucedendo ao pai, Ali Khamenei, morto no primeiro dia de ataques dos EUA e de Israel, quando surgia na Praça Valiasr, em Teerão, um novo cartaz gigante. Nele podiam ver-se os três homens que lideraram a República Islâmica desde a Revolução de 1979 que derrubou a monarquia. Sob o olhar de Ruhollah Khomeini, Khamenei pai entrega uma bandeira do Irão a Khamenei filho, no que se assemelha a um campo de papoilas e com o monte Damavand, o mais alto do país, ao fundo.

EPA / ABEDIN TAHERKENAREH

Este foi o mais recente dos inúmeros murais propagandistas que vão surgindo pela capital iraniana e que se tornaram famosos graças às fotos publicadas nos sites noticiosos e nas primeiras páginas de jornais de todo o mundo. Além dos cartazes laudatórios da liderança iraniana ou a celebrar mártires revolucionários e motivos religiosos, não faltam aqueles que têm como alvo os dois maiores inimigos do regime dos ayatollahs - EUA e Israel, o “Grande Satã” e o “Pequeno Satã”, aos olhos de Teerão.

Mensagens como “Preparem os vossos caixões” (em hebraico e acompanhada de uma chuva de mísseis), “Morte à América” (junto a uma bandeira dos EUA) ou “Se eles querem guerra, nós somos especialistas em guerra” (de novo a acompanhar uma ilustração de mísseis a atingir Israel) foram imagens comuns em Teerão nos últimos meses.

Para o iranologista Raffaele Mauriello, ouvido pela agência espanhola EFE, esse muralismo patrocinado pelo Estado funciona como uma “guerra de imagens”. Mas o recurso a murais para passar mensagens políticas é tudo menos novo no Irão. A tradição começou durante a Revolução Islâmica de 1979, que pôs fim ao pouco amado regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, e terá sido inspirada nos grandes muralistas mexicanos como Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros. Todos eles artistas revolucionários que procuravam plasmar os seus ideais anti-imperialistas e anticapitalistas nas paredes.

Com os iranianos sem acesso à internet desde o início dos ataques israelo-americanos, a 28 de fevereiro, são escassas e, por vezes contraditórias, as notícias do que se passa no país, apesar de alguns relatos conseguirem chegar ao Ocidente. Escassas são também as imagens de Teerão, com as devidas exceções autorizadas pelo regime, fosse para mostrar as multidões que se juntaram para o adeus a Khamenei pai ou para saudar a escolha de Khamenei filho como sucessor. Talvez por isso os murais se tenham tornado num símbolo da resiliência do regime, que não só se mantém, apesar dos bombardeamentos diários (e de Trump já ter dado a guerra por “vencida”), como tem retaliado não só contra Israel, mas também contra os países vizinhos, sobretudo os do Golfo.

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