25 de Abril: a democracia e a liberdade festejam-se na rua

Alexandra Leitão

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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A 25 de Abril celebra-se o dia inicial da democracia, da liberdade e da igualdade. Celebra-se o golpe militar transformado em revolução pacífica pela adesão espontânea, total e livre do povo, que derrubou o regime autoritário, opressor e retrógrado que governava o nosso país há quase meio século.

Em 2026, cinquenta e dois anos volvidos sobre esse momento fundador, emergem vocais os detratores do 25 de Abril,que são também os detratores dos valores que este representa. Os arautos de um revisionismo histórico assente em preconceitos ideológicos antidemocráticos e muitas vezes em falsidades. Os mesmos que invocam a liberdade que Abril nos deu para atacar a própria liberdade, beneficiando da tolerância que é o âmago da superioridade ética da Democracia. Esses políticos radicais e populistas antidemocráticos exigem dos democratas uma constante vigilância e proatividade na defesa da liberdade e da igualdade. Mas não são os únicos.

Também os autoapelidados moderados que diluem o significado histórico e político do 25 de Abril contribuem para o apoucamento desse momento seminal. Foi, infelizmente, o que vimos acontecer nas comemorações organizadas quer pelo Governo na residência oficial do primeiro-ministro, quer em Lisboa pela Câmara Municipal.

Em São Bento houve uma celebração do teatro, que incluiu uma justa homenagem a Ruy de Carvalho, mas em que esteve ausente o 25 de Abril. Esta omissão é imperdoável, sobretudo num contexto em que os valores democráticos estão sob ameaça.

Em Lisboa, a Câmara Municipal e a EGEAC não organizaram nenhuma comemoração institucional do 25 de Abril, a pretexto da sua integração nas designadas “Festas da Primavera”, onde se celebra “o regresso do sol, das flores, da boa disposição, a vontade de sair de casa e de fazer coisas com os amigos”. O completo apagamento do 25 de Abril neste contexto é sintomático do desinteresse com que o governo da Cidade encara a Revolução que nos restituiu e democracia e a liberdade. E, já agora, que criou também o poder local autónomo e democrático.

Ambas as celebrações (ou a sua omissão) contrastam com o que o Presidente da República fez em Belém, abrindo os jardins do Palácio com uma programação alusiva à efeméride.

Mas a indiferença do Governo e da CML na celebração do 25 de Abril teve resposta na rua. As largas dezenas de milhar de pessoas, incluindo muitos jovens, que desfilaram durante horas na Avenida da Liberdade, do Marquês de Pombal até ao Rossio, demonstraram bem que o 25 de Abril está vivo onde mais interessa: em nós todos, o povo. O mesmo povo que em 1974 se juntou aos militares para, de forma pacifica, com alegria, altruísmo e generosidade, tomar nas suas mãos as rédeas de um futuro democrático, livre, justo e solidário.

Nota: Os discursos da cerimónia do 25 de Abril na Assembleia da República trouxeram para o debate de forma acalorada a matéria da transparência e do escrutínio dos políticos. Em época de populismos, as abordagens simplistas e caricaturais são perigosas e contraproducentes. Fica, lapidar, a afirmação do Presidente da República: “A suspeita cresce na opacidade.”

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