13,3 mil milhões de razões para testar a Semana de 4 Dias

Isabel Mendes Lopes

Líder parlamentar do Livre

Publicado a: 

13,3 mil milhões de euros por ano. 40 dias por ano a cada trabalhador. São as estimativas da Ordem dos Psicólogos para o impacto do stress e dos problemas de saúde psicológica no mercado de trabalho em Portugal. O número deve assustar-nos e fazer pensar. Não só pelo impacto económico que representa, com especial peso para as empresas portuguesas, mas também pelo que significa para o bem-estar de cada trabalhador e da sua família.

O problema do burnout não é novo, mas a sensação é que tem vindo a agravar-se e a generalizar-se. Este relatório da Ordem dos Psicólogos comprova esta sensação, dado que a mesma estimativa foi feita há quatro anos e o impacto era quatro vezes menor. Isto é o sintoma de uma sociedade que vive cada vez mais cansada, num ritmo frenético. E que só perde com isso. Mas não tem de ser assim. A forma como nos organizamos é uma escolha política, como foram a definição das 40 horas semanais, o estabelecimento do salário mínimo, a instituição do fim de semana ou o direito a férias.

Entretanto, o mundo do trabalho mudou muito e a inovação tecnológica revolucionou a forma como trabalhamos e nos conectamos. Mas não foi só isso que mudou: hoje temos muito maior conhecimento sobre o comportamento humano e os fatores que condicionam a saúde. Se juntarmos tudo isto, facilmente percebemos que é altura de repensar a forma como nos organizamos.

E a verdade é que muita gente, em todo o mundo, o está a fazer. Aliás, não precisamos de ir fora de fronteiras para encontrar exemplos, nomeadamente nas experiências da Semana de 4 Dias.

Depois de, em 2023, um piloto no setor privado com resultados excelentes para trabalhadores e empresas e de um inquérito que mostrou que há vontade de a experimentar na Administração Pública, o Governo da AD boicotou a sua continuação assim que tomou posse em 2024.

O que vale é que o Governo da AD – mas nos Açores – considerou que esta é uma ideia que vale a pena explorar. E na semana passada conhecemos os resultados do projeto piloto na Administração Pública nos Açores. Quase 400 pessoas experimentaram durante 6 meses uma redução do horário de trabalho, sem perda de remuneração, em semanas de 4 dias ou de 4 dias e meio, mantendo o atendimento ao público nos 5 dias da semana.

E quais foram os resultados? Para os trabalhadores: uma redução da ansiedade, da fadiga e dos problemas do sono, uma diminuição no sentimento de solidão, uma melhor conciliação com a vida pessoal e familiar e um aumento da prática de exercício físico. E para os serviços? A produtividade aumentou 62% dos indicadores avaliados, foram concluídos mais processos e houve um melhor cumprimento dos prazos! Ou seja, a produtividade absoluta aumentou e a vida dos trabalhadores e das suas famílias melhorou.

Com estes resultados, que têm sido consistentes nos vários pilotos, e dado o impacto que o burnout tem na nossa saúde e na nossa economia, é uma enorme irresponsabilidade não se continuar a testar a Semana de 4 Dias. Estes pilotos permitem que, mais à frente, façamos escolhas políticas informadas sobre a forma como nos queremos organizar neste século XXI para termos uma vida plena e uma melhor economia. O Livre continuará a insistir. Vamos ver se Luís Montenegro continua a boicotar ou se segue o bom exemplo dos seus colegas de partido nos Açores.

Diário de Notícias
www.dn.pt