Cerca de 121 mil veículos circulam atualmente em Portugal sem o seguro obrigatório de responsabilidade civil. O dado foi recentemente trazido pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) e devia preocupar-nos a todos. Mais do que o número absoluto que impressiona, o mais preocupante é a tendência de crescimento. A ASF confirma um aumento consistente nos últimos anos, e é clara ao afirmar que este não é "um fenómeno residual". Essa é a questão essencial: por que continua esta realidade a crescer?Não existe uma resposta única. A pressão económica sobre muitas famílias poderá explicar alguns casos, sobretudo quando o orçamento obriga a escolhas difíceis. Nestas circunstâncias, o seguro pode ser visto apenas como mais um encargo mensal. Mas é provável que uma parte importante deste fenómeno resulte também da tendência para subestimar o risco. A ideia de que os azares "só acontecem aos outros".Os dados do próprio estudo suportam essa leitura. O perfil mais representado entre os veículos sem seguro corresponde maioritariamente a homens entre os 20 e os 40 anos, residentes em áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e em zonas suburbanas com forte mobilidade pendular. Este é precisamente um dos grupos mais expostos ao risco, com maior probabilidade de acidente.É importante, no entanto, não confundir esta realidade com falta de acesso. Hoje não existem barreiras à contratação de um seguro. Os canais digitais das seguradoras disponibilizam diversas opções online, 24 horas por dia, sete dias por semana. A dificuldade, a existir, não está no acesso. Está sim, na forma como o risco é percecionado e na decisão de abdicar de uma proteção cujas consequências só se tornam evidentes quando já é demasiado tarde.O seguro obrigatório de responsabilidade civil não é uma formalidade administrativa, nem deve ser encarado apenas como uma exigência legal. A sua existência garante que, quando ocorre um acidente, as vítimas são devidamente protegidas e indemnizadas. É um mecanismo essencial de proteção social que assegura a reparação, tanto quanto possível, dos danos causados a terceiros.Existe ainda uma outra dimensão frequentemente desvalorizada, mas igualmente importante, a proteção financeira do próprio condutor. Um acidente rodoviário pode provocar danos materiais elevados, lesões graves, incapacidade permanente ou mesmo a perda de vidas humanas. Nestes casos, as indemnizações podem atingir valores incomportáveis para a esmagadora maioria das famílias.É verdade que as vítimas contam com a proteção do Fundo de Garantia Automóvel. Mas importa recordar que, quando o Fundo indemniza os lesados por um acidente causado por um veículo sem seguro, esse valor é posteriormente reclamado ao responsável pelo acidente. A dívida não desaparece. Pelo contrário, pode acompanhar uma pessoa durante muitos anos e comprometer de forma séria a sua estabilidade financeira. Isto é um risco maior que qualquer multa por falta de seguro válido.Vale a pena recordar que qualquer cidadão pode confirmar, em poucos segundos, se um veículo possui seguro válido através do portal do consumidor da ASF ou da aplicação móvel "Tem Seguro?". É uma ferramenta simples que ajuda a verificar o cumprimento da lei e sobretudo a garantir que circulamos devidamente protegidos.A sensibilização para este tema não pode ser só do regulador. É também responsabilidade do setor segurador ajudar a tornar esta informação mais clara e acessível, não só comunicando o que é obrigatório, mas ajudando as pessoas a perceber, de forma simples, por que esta obrigação existe.Decidir ter seguro e escolher bem esse seguro é uma escolha inteligente. Protege quem já está seguro, e protege também quem, num imprevisto, pode ficar com a vida severamente impactada.O seguro obrigatório é indispensável, mas na maior parte dos casos é apenas o primeiro nível de proteção. Cada pessoa deve avaliar, em função da utilização que faz do veículo e da sua realidade pessoal, complementar essa cobertura com outras garantias que o protejam e ao seu património perante situações que escapam ao nosso controlo, como fenómenos meteorológicos extremos ou outros acontecimentos inesperados.Escolher um seguro não é apenas cumprir uma obrigação legal. É uma decisão responsável que protege quem conduz, quem viaja connosco e todos aqueles com quem partilhamos diariamente a estrada. É, acima de tudo, uma escolha consciente sobre os riscos que estamos ou não dispostos a assumir.