O VAR em Portugal: tecnologia de ponta ou espelho da nossa cultura?

Victor Martins

Comentador de futebol

Publicado a

Portugal foi um dos pioneiros na adoção do videoárbitro (VAR) em todos os jogos da Primeira Liga, após os testes iniciais na final da Taça de Portugal e na Supertaça Cândido de Oliveira, em 2017. Volvidos praticamente nove anos, a sensação é de que a tecnologia, por si só, estagnou. Se houve evolução, esta deveu-se mais ao aperfeiçoamento do sistema através da experiência acumulada pelos intervenientes do que a um salto tecnológico propriamente dito.

Embora o sistema tenha sido concebido para tornar o futebol mais justo (em boa verdade, fê-lo), é inegável que o preço a pagar foi a erosão da emotividade. O clímax do golo imediato, aquele instante de explosão pura, deu lugar a uma celebração contida, pendente de uma validação remota que retira ao jogo a sua essência mais primitiva.

O VAR foi prometido como a "cura" para a desconfiança crónica do futebol português. Contudo, revelou-se um novo foco de “contágio”. Este artigo não pretende julgar se a ferramenta é "boa ou má", nem alimentar a contabilidade de quem foi mais ou menos beneficiado. Aliás, essa discussão é a maior patologia do futebol português. Quem acreditou que a tecnologia erradicaria a polémica enganou-se redondamente. Em Portugal, a cultura clubística está enraizada de forma tão profunda que o VAR apenas mudou e diversificou o foco: das decisões no relvado para os ecrãs da Cidade do Futebol.

O objetivo do VAR é minimizar o erro humano, mas a sua erradicação é uma utopia. A subjetividade de conceitos como a "intensidade" de uma falta ou a "posição não-natural" de um braço mantém o debate vivo. Mais ainda, a precisão das linhas de fora de jogo depende de uma seleção humana milimétrica do momento do passe, um erro de apenas um frame, definido por escassos 33 milissegundos, pode gerar discrepâncias de 20 a 30 centímetros. Enquanto noutras paragens estas margens são aceites como parte do jogo, em Portugal alimentam teorias da conspiração.

Por mais que se critique, o futebol é hoje mais justo e os erros graves são menos frequentes do que no passado. Todavia, o ritmo do espetáculo sofreu um golpe severo. As paragens longas em Portugal, muitas vezes superiores à média europeia, quebram o fluxo do jogo e favorecem quem vive do antijogo.

Segundo o protocolo, o VAR só deve intervir em situações de erro claro e óbvio. Se o árbitro necessita de vários minutos diante do monitor, a dúvida persiste e o erro deixa de ser óbvio. Esta hesitação é fruto do nosso ambiente tóxico: "Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão." Os árbitros, pressionados por dirigentes que comunicam por retaliação e por programas televisivos que dissecam cada segundo em horário nobre, tentam tanto evitar o erro que acabam por cair no exagero. Nenhum ser humano, por mais forte que seja psicologicamente, é plenamente assertivo sob este nível de escrutínio venenoso.

Por fim, há que falar da personalidade e da hierarquia. A decisão final deve ser sempre de quem sente o "calor" do relvado, e não necessariamente de quem observa as imagens num ambiente assético e frio. Um árbitro com personalidade não se deixa vergar pelo peso da hierarquia ou pelo nome de quem está na cabine do VAR. A sensibilidade do momento é, muitas vezes, um dado que a câmara não consegue captar.

Num jogo feito por humanos, todos os protagonistas estão sujeitos ao erro. O VAR não é, portanto, um problema tecnológico, mas sim o espelho da nossa incapacidade coletiva em aceitar o erro como parte integrante da vida e do desporto. Enquanto exigirmos a perfeição de uma máquina num jogo desenhado por humanos, o VAR continuará a ser, não uma solução, mas o bode expiatório da nossa própria intolerância.

Diário de Notícias
www.dn.pt