Na 31.ª jornada desta edição da I Liga, o jogo entre Tondela e Nacional contará com uma novidade: a venda de bebidas com teor alcoólico inferior a 6,0% vol. no interior do Estádio João Cardoso!⠀Desde 1980 que é proibido o consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios portugueses (salvo raras exceções, como camarotes e zonas VIP). 46 anos depois, é reconhecido que houve uma evolução e que estão reunidas condições de segurança para que seja possível beber uma cerveja ou uma sidra enquanto se assiste a um jogo da I ou da II Liga.Esta pode parecer uma medida simples e com pouca importância.⠀No entanto, há alguns aspetos que, sendo levados em consideração, a tornam bastante pertinente para o Futebol Português e os seus intervenientes.Em primeiro lugar, esta medida possibilita o acesso a uma nova fonte de receita para os clubes portugueses.Em condições normais, a generalidade dos nossos clubes, dado o seu baixo poder comercial, já teriam receitas de dia de jogo abaixo do que seria desejável.⠀Pior ficam quando não os colocamos em pé de igualdade com os clubes de alguns dos principais campeonatos europeus…Recorrendo a exemplos dados pelo Vitória SC, numa proposta feita pelo clube no decorrer de uma Assembleia Geral da Liga: “Em Inglaterra, cada jogo da Premier League gera entre 175 mil e 350 mil euros.⠀Na Alemanha, clubes da Bundesliga chegam a vender mais de 40 mil cervejas num único jogo, traduzindo-se em centenas de milhares de euros por jornada.⠀O AZ Alkmaar, da Holanda, fatura mais de 6 milhões de euros por época desportiva apenas com a venda de cerveja no seu estádio que tem lotação de 20 mil pessoas”.⠀Ou seja, mesmo que a nossa realidade não possa ser comparável à dos exemplos mencionados, a proibição da venda de álcool no interior dos estádios está, efetivamente, a privar os clubes portugueses de uma receita que pode ser bastante considerável.A juntar a esta importante questão das receitas, há um reconhecimento, por parte do Governo e das Autoridades de Segurança Pública, igualmente relevante: afinal, os adeptos de futebol não são todos uns “animais incontroláveis”.Nos últimos anos, com o pretexto de combater a violência no desporto, criou-se uma generalização em relação ao adepto de futebol que, além de discriminatória, teve um impacto negativo em algumas vertentes do Futebol Português.Desde entraves à utilização de instrumentos e acessórios (como bandeiras, tambores ou tarjas), passando por “alguns excessos no uso da força policial” (descritos pela Associação Portuguesa de Defesa do Adepto), até a definição de zonas específicas para um certo perfil de adepto (as ZCEAP para os grupos organizados), foram tomadas várias ações que contribuíram negativamente para a experiência de ver um jogo de futebol em Portugal.Permitir o consumo de álcool nos estádios é um avanço no sentido de parar de “marginalizar” o comum adepto de futebol. Como o próprio presidente da Liga, Reinaldo Teixeira, afirma: “Não faz sentido estar num estádio a conviver e não poder beber uma cerveja ou uma sidra. É uma questão de bom senso. Os adeptos estão a dar provas de que merecem essa confiança.”Em suma, é evidente que a liberalização do álcool nos estádios não vai fazer milagres. Não vai, por magia, fazer com que os clubes dupliquem ou tripliquem as suas assistências médias. Nem vai tornar a experiência de um jogo da I Liga semelhante ao de um da Premier League.⠀Contudo, vai ao encontro da necessidade do Futebol Português se modernizar e procurar tornar os seus espetáculos (jogos) mais apelativos para os adeptos e rentáveis para os clubes.Acima de tudo, e sendo eu um otimista por natureza, acredito que esta medida pode ser o primeiro passo para que haja uma abertura para rever a legislação atual, que tanto tem limitado os direitos dos adeptos e prejudicado os ambientes nos estádios.Ficamos a aguardar por desenvolvimentos. Até lá, ainda para mais com o calor a chegar, aproveitemos o “luxo” que é assistir a um jogo do ‘Tugão’ acompanhado por uma jola!